quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Educação: CAPES permite pós-graduação à distância

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC), está com um edital aberto para ofertar, pela primeira vez, cursos de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) a distância. Instituições interessadas em oferecer programas nessa modalidade, inicialmente para mestrado, devem apresentar proposta até o dia 9 de agosto. As informações são do jornal O Globo. 
Portaria sobre o tema foi publicada pela Capes no Diário Oficial da União em 29 de abril. Para abrir um mestrado stricto sensu a distância, a instituição de ensino já deve contar com um programa presencial na mesma área, com nota na avaliação do órgão de no mínimo 4 (em uma escala que vai até 7). A instituição também deve ser credenciada pelo MEC e ter nota mínima de 4 (nesse caso a escala vai até 5) no Índice Geral de Cursos (IGC).
Ainda de acordo com a portaria, somente serão permitidas propostas de doutorado a distância depois do primeiro ciclo de avaliação do programa de mestrado oferecido na modalidade.
Segundo o jornal O Globo, a Capes não informou quantas instituições de ensino já apresentaram propostas. As inscrições começaram em 1º de julho. A decisão de ofertar cursos na modalidade a distância foi justificada pela Capes à reportagem de O Globo pelo fato de já existirem atividades nesse formato em muitas aulas de cursos de pós-graduação. Ainda de acordo com a Capes, a medida ajuda a interiorizar os cursos de pós no país.

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Comércio internacional: comércio competitivo versus comércio antagonista

"Por que será que o ocidente é obcecado com as nossas exportações?", perguntaram todos os visitantes japoneses. "Os alemães exportam ainda mais, e seu superávit comercial também cresce rapidamente.". Mas existe uma diferença, embora os japoneses ignorem. Os alemães, de fato, ultrapassaram os japoneses como exportadores de bens manufaturados - somente os Estados Unidos da América ( USA ) os superam.

Mas os alemães são, também, o segundo maior importador mundial de bens manufaturados - mais uma vez, só superados pelos EUA. Os japoneses, entretanto, apenas vendem e não compram. Eles praticam adversarial trade. ester termo foi cunhado por Peter F. Drucker e significa algo como comércio internacional destrutivo ou comércio antagonista. Ao praticá-lo, o país tem por objetivo eliminar os concorrentes.

O modelo original de comércio internacional do século dezoito - aquele formulado por Adam Smith - reconhece o comércio complementar: Portugal, onde é seco e faz calor, vende vinho em troca de lã da fria e olhada Inglaterra. Cada parte compra o que não pode produzir por conta própria e vende aquilo que pode ser idealmente produzido nas condições climáticas do país. Nesta relação, não há perdedores, apenas ganhadores.

No entanto, desde meados do século dezenove, o setor que mais cresce na economia internacional tem sido o comércio competitivo entre os países desenvolvidos. As partes compram umas das outras bens semelhantes, que são capazes de produzir. Assim, os EUA são tanto o maior exportador do mundo quanto o maior importador mundial de produtos químicos. Per capita, os suíços são os maiores exportadores mundiais de ferramentas industriais e de maquinário para a indústria têxtil, mas também são os maiores importadores de ambos. A Alemanha exporta mais veículos motores ( incluindo caminhões e ônibus ) que o Japão, mas, para cada cinco veículos alemães vendidos no exterior, o país importa três. No comércio competitivo, existem perdedores: por exemplo, os fabricantes de teares dos EUA - ou a Alemanha, a Grã-Bretanha ou a Suíça - , cujo produto, tecnicamente inferior ou mais caro, está sendo empurrado para fora dos mercado por concorrentes estrangeiros mais avançados e baratos. Contudo, de modo geral, todos saem ganhando: não apenas o consumidor, mas também os concorrentes que estão sendo forçados a se concentrar naquilo que fazem de melhor, otimizando, assim, tanto os recursos quanto os retornos. Na verdade, no comércio competitivo, o concorrente estrangeiro de uma indústria costuma ser também seu melhor cliente.

No entanto, no comércio antagonista ( adversarial trade ) ambas as partes saem perdendo. De um lado, o comprador, imediatamente; do outro, o vendedor, dentro de mais ou menos uma década.

No comércio antagonista, os bens do vendedor substituem os bens produzidos pelos fabricantes do país comprador sem qualquer compra recíproca compensatória. Desta forma, não são criados mercados alternativos para os fabricantes do comprador estrangeiro, muito menos poder de compra. Como não há vendas compensatórias para os fabricantes internos do país comprador, este não consegue obter os recursos necessários para modernizar suas fábricas e processos ou para adquirir o volume de produção necessário para diminuir os custos. Portanto, no comércio antagonista, quanto maior for o sucesso do vendedor, mais a indústria e a economia produtiva do comprador se enfraquecem, em vez de se fortalecer. E, se o vendedor tiver um sucesso realmente espetacular, eventualmente destruirá a indústria do comprador. Por exemplo, em mil novecentos e setenta e quatro, havia mais de uma dúzia de fábricas de empilhadeiras nos EUA. Doze anos mais tarde, já não havia alguma sequer - nem mesmo uma montadora. O mesmo aconteceu, em grande parte, com eletrodomésticos, gravadores de vídeo e muitas outras categorias de ferramentas industriais e semicondutotes. Portanto, isto significa também que, no final, mesmo o consumidor do país comprador sai perdendo. A queda de suas receitas como produtor, isto é, em receitas, irá eventualmente mais do que anular seus ganhos como consumidor com os preços mais baixos. Os efeitos da concorrência antagonista - não importa se intencionais ou não - são notavelmente semelhantes àquilo que tanto economistas quanto advogados condenam como política predatória de preços, isto é, quando estabelecem preços tão baixos que os concorrentes acabam destruídos e se forma um monopólio.

Entretanto, no comércio antagonista, o vendedor poderá acabar perdendo até mais que o comprador - sem ter como evitar isto. O vendedor não tem defesa conta ações retaliatórias por parte do comprador. Ele não pode contra-atacar deixando de comprar: ele não compra nada. Certamente, os japoneses estão entre os melhores clientes dos EUA para produtos agrícolas e florestais. Contudo, embora o poder político dos agricultores americanos ainda seja extraordinário, as exportações americanas de produtos primários se tornaram uma parte muito pequena do total - e cada vez diminuem mais - para se consideradas um fator decisivo. Existem poucas dúvidas de que os EUA poderiam viver sem importar bens manufaturados japoneses, e a um custo bem pequeno. O mesmo poderia ser dito da Europa Ocidental. Mas o Japão, sem a exportação de produtos industriais para os americanos, teria de enfrentar uma grande depressão, com uma taxa de desemprego de duplo dígito.

No comércio antagonista, o vendedor também está fadado a ter perdas financeiras. Ele não conseguirá ser pago. Afinal, os compradores só podem pagar se tiverem uma renda, isto é, se eles próprios receberem pagamentos como vendedores. O vendedor que não compra irá descobrir, portanto, que, ao final, terá abrido mão de suas receitas, embora não se possa dizer que o outro lado irá gostar da gentileza.

O Japão, hoje, tem o maior superávit líquido de fundos do mundo - tão grande quanto qualquer coisa com que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo ( OPEP ) tenha sonhado e, em breve, ficará ainda maior. As instituições bancárias praticamente em caixa ou em valores mobiliários de curto prazo, como Títulos do Tesouro americano. Isso é muito mais do que o Japão precisa para financiar seu comércio. É tanta coisa que o Japão poderia pagar suas importações durante seis anos sem precisar ganhar um único iene com exportações. O único paralelo na história econômica é o superávit americano dos anos imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, quando os EUA eram a única grande economia do mundo em pleno funcionamento. Este superávit pode ser usado para pagar por produtos - algo que o Japão não deseja fazer - ou pode ser distribuído, como fizeram os americanos durante os anos do Plano Marshall. Pode ainda ser perdido. Os japoneses podem, naturalmente, continuar a aumentar seus superávits. Mas isto significa apenas que eles oferecerão cada vez mais crédito para clientes que jamais pagarão. E, eventualmente, contas incobráveis devem receber baixa contábil.

Até aqui, o Japão tem sido o único praticante do comércio antagonista. Não que tenha sido algo intencional, isto é certo, mas é a consequência lógica da tradicional abordagem japonesa em relação ao comércio internacional - uma abordagem, diga-se de passagem, que fazia todo sentido enquanto o país ainda tentava se recuperar, isto é, até os anos sessenta, talvez mil novecentos e sessenta e cinco ou algo em torno disto. Agora, entretanto, um vizinho, a Coreia do Sul, está deliberadamente embarcando no comércio antagonista. Se a China continental algum dia se desenvolver industrialmente, ela também - pelos monos em seu atual modelo mental - tentará se tornar apenas uma vendedora, não uma compradora, ou seja, praticará o comércio antagonista.

Alguns pequenos passos para corrigir o desequilíbrio criado pelo comércio antagonista estão sendo tomados. Não será incomum ouvir, com certa frequência, nos meses e anos á frente a expressão cotas voluntárias, mas também dumping japonês. Os japoneses, especialmente a indústria automobilística, estão rapidamente transferindo parte de sua produção para os EUA e Europa Ocidental na tentativa de neutralizar medidas antijaponesas. No entanto,  - e, diga-se, isto é algo para o qual os japoneses continuam cegos - , isto ainda é uma ação percebida como predatória no país comprador, porque substitui o fabricante nacional, a quem o comércio antagonista japonês inicialmente prejudicou ou destruiu. Transferir a produção para o país comprador - a não ser que acompanhada da compra das exportações daquele país - é, na melhor das hipóteses, uma meia-sola, ou uma solução paliativa. Mais eficaz seria um consórcio de produção, em que os fabricantes do país comprador forneçam ao vendedor como subcontratantes ou parceiros - o modo, por exemplo, como a Boeing encomendou entre trinta e quarenta por cento do trabalho de desenvolvimento e fabricação de sua nova aeronave comercial com empresas japonesas, ou como a Rolls-Royce, na Grã-Bretanha, participa do todo como a fornecedora de motores para aeronaves americanas vendidas para empresas europeias. Até aqui, contudo, os japoneses têm resistido a negócios que envolvam consórcios. Talvez eles paguem sua parte assumindo empréstimos-problema de bancos americanos junto a países em desenvolvimento - algo que começa a ser discutido em Nova Iorque e Washington, embora, por enquanto, a portas fechadas.

Entretanto, a não ser que os japoneses tomem a inciativa destas medidas, que, de uma forma ou de outra, contrabalançam as piores consequências de seu comércio antagonista - e, até aqui eles não demonstraram a menor disposição de fazê-lo, nem mesmo de reconhecer que existe um problema - , serão tomadas medidas políticas para eliminar, ou, pelo menos, limitar o comércio antagonista - e muito em breve. A Europa Ocidental já foi bem longe em tomar medidas para protegê-la, especialmente no que diz a respeito a automóveis japoneses. E os EUA certamente farão o mesmo. Até o momento, o residente tem se colocado contrário a qualquer tipo de medida protecionista. Mas será apenas necessária uma pequena turbulência na economia ou um pequeno aumento na taxa de desemprego para que o Congresso Nacional ( CN ) aprove, por ampla maioria, medidas protecionistas - e com o apoio quase unânime da opinião pública. E medidas protecionistas esperando para ser aprovadas não faltam. As novas têm de pegar senha e entrar na longa fila.

Há uma necessidade de estancar ou, pelo menos, confinar o comércio antagonista. Mas existe também o grande perigo de que as medidas a serem adotadas provoquem mais danos do que benefícios - e prejudiquem especialmente a economia e a indústria manufatureira americanas. Nenhuma das propostas em discussão hoje - por exemplo, a que está sendo analisada pela Câmara dos Deputados ( CD ) e que prevê a proibição da venda de bens manufaturados estrangeiros a não ser que tenham de trinta a quarenta por cento de nacionalização - faz a diferenciação entre o comércio antagonista e comércio competitivo. Elas são uniformemente protecionistas e penalizam todos os produtos manufaturados importados. Isto prejudicaria seriamente e, talvez, destruísse as exportações americanas para países que compram de nós, isto é, os parceiros americanos no comércio competitivo. Os europeus retaliaram imediatamente. E todas as indústrias americanas saudáveis - talvez três quartos da base industrial dos EUA - dependem das exportações para a Europa a fim de crescer e até sobreviver - de aeronaves e instrumentos analíticos, até biomedicina, farmacêuticos, computadores, produtos químicos, robôs, maquinário elétrico e software. O que é preciso é de uma medida que trate da doença degenerativa do comércio antagonista sem prejudicar os tecidos são do comércio competitivo - talvez limitando as restrições comerciais às importações de países e indústrias que não comprem de outros países desenvolvidos ( incluindo os EUA ) bens manufaturados de tipo semelhante pelo menos equivalente em valor a cinquenta ou sessenta por cento de suas exportações.

Os japoneses afirmam que não têm culpa do fato de os EUA preferirem seus produtos aos que são fabricados na indústria nacional americana, e que a força de suas exportações é o resultado de um trabalho mais intenso  que o dos outros, dedicado à produção de bens superiores em qualidade e design, com preços mais baixos e com melhores serviços. De modo geral, isto é verdade - a japão S. A. é em grande parte, fruto da imaginação ocidental. Mas isto é irrelevante. O comércio antagonista não será tolerado por muito mais tempo. Ele não foi planejado com esta intenção, ma se tornou uma política cujo objetivo é empobrecer o vizinho. E isto sempre será contraproducente. Outras informações podem ser obtidas no livro As fronteiras da administração, de autoria de Peter F. Drucker.

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https://administradores.com.br/artigos/com%C3%A9rcio-internacional-com%C3%A9rcio-competitivo-versus-com%C3%A9rcio-antagonista .

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Comércio internacional: a poupança interna e o risco do protecionismo

Jamais um grande país deveu a seus credores estrangeiros em sua própria moeda, como é o caso dos Estados Unidos da América ( EUA ) hoje. todas as outras principais nações devedoras - Brasil ( que no século vinte e um passou a ser credor externo e modificou o perfil de suas dívidas ), México, Zaire ( atual Congo ) - devem na moeda de seu credor, principalmente em dólares. Assim como ocorreu nos anos vinte com a Alemanha e outros países europeus - os grandes devedores daquela época. Contudo, a dívida externa dos EUA hoje é toda em dólares.

As vantagens para o país são enormes e tão sem precedentes quanto a situação em si. Pela primeira vez, um país devedor está em posição de se beneficiar tanto em sua conta de capital quanto em sua conta de comércio ao desvalorizar sua moeda. Historicamente, um país devedor obtém posição competitiva para seus produtos por meio da desvalorização de sua moeda, embora apenas por um curto período. Assim, as exportações aumentam e as importações diminuem, e um déficit comercial se transforma em superávit comercial. Assim ocorreu durante o governo do presidente Carter dos EUA, quando a política americana abruptamente forçou a desvalorização do dólar. Entretanto, ao mesmo tempo, a balança de pagamentos do país se deteriora, uma vez que os juros e o principal devem ser pagos na moeda do devedor. Se a dívida externa estiver alta, a penalidade na balança de pagamentos poerá ser maior que o ganho a ser obtido na balança comercial. Esta é, por exemplo, a razão pela qual, em mil novecentos e trinta e um, os alemães escolheram ( olhando para trás, constata-se que a decisão foi equivocada ) impor controle monetário para manter uma taxa de câmbio grosseiramente supervalorizada em favor do marco ( moeda alemã da época - a atual é o euro ), em vez de desvalorizá-lo e aumentar as exportações e o emprego.

Uma queda aguda do valor internacional do dólar, contudo, deverá melhorar a balança de pagamento dos EUA e aliviar fortemente o peso da dívida externa americana sobre a economia interna, restaurando o verdadeiro valor do dólar para os credores do país.

Por que, então a administração do presidente Ronald Reagan dos EUA ( sucessor de Carter ) esperou tanto tempo antes de agir para corrigir a óbvia sobrevalorização do dólar, especialmente frente ao iene ( moeda do Japão ) ? A sobrevalorização do dólar tem sido um dos principais fatores - ou talvez o principal fator - que contribuiu para o declínio tanto dos produtos manufaturados quanto dos agrícolas, fato universalmente aceito, pelo menos desde mil novecentos de oitenta e três. Apesar disto, em mil novecentos e oitenta e cinco, a política americana - e isto significa tanto o Federal Reserve Board ( o equivalente ao Banco Central dos EUA ) quanto o Tesouro - consistentemente visava a manter a taxa de câmbio do dólar ao maior valor possível, excluindo - ou assim parecia para a maioria dos observadores estrangeiros - qualquer outra consideração de meta ou de política econômica.

A resposta é, naturalmente, que o governo precisou de gigantescos empréstimos estrangeiros. Somente os japoneses, em mil novecentos e oitenta e cinco, lhe haviam emprestado entre cinquenta bilhões e sessenta bilhões de dólares, que podiam obter apenas por meio de seu superávit comercial com os americanos. Foram eles, portanto, que forneceram a parte do leão do dinheiro necessário para financiar o déficit orçamentário dos EUA. Confrontadas com as alternativas de cortar significativamente os gastos do governo ou tomar emprestado em âmbito interno e aumentar as taxas de juros, as autoridades do governo, compreensivelmente, devem ter concluído que a opção menos ruim era ter um déficit da balança comercial, com todas as consequências negativas para os empregos e para a posição competitiva de longo prazo americanos.

Mas, como a dívida externa dos EUA é em moeda americana, o credor externo poderá ser facilmente expropriado. São dispensáveis ações legais, inadimplência ou não reconhecimento da dívida. Tudo pode ser feiro sem pedir permissão aos credores e, certamente, sem sequer avisar a eles. É preciso apenas desvalorizar o dólar. Com efeito, entre junho ( quando o dólar teve um pico de duzentos e cinquenta ienes ) e fevereiro de mil novecentos e oitenta e seis, os credores japoneses dos EUA - principalmente o Bank of Japan ( BJ ), os principais bancos nipônicos e as grandes trading cmpanies - perderam um terço do valor de suas possessões em valores mobiliários do Tesouro americano, a forma como é feita a maioria dos investimentos japoneses nos EUA. ( * vide nota de rodapé ).

Ninguém nos EUA parece saber disto ou, pelo menos, ninguém fala no assunto, mas todos os elaboradores de políticas que Peter F. Drucker dizia ter chegado a conhecer no Japão - funcionários do governo, banqueiros, homens de negócio, professores de Economia - estavam, à época, inteiramente conscientes destas perdas. E estavam todos convencidos de que era algo inevitável. Embora alguns japoneses, especialmente entre os economistas, se preocupassem por temer que uma perda desta proporção pudesse ameaçar a solvência do sistema bancário do país, todos pareciam entender que este era um mal menor, comparado a qualquer outra alternativa viável na década de oitenta.

Do ponto de vista do Japão, não existe uma opção viável para restabelecer o equilíbrio comercial entre os dois países. Isto porque a causa principal não é o dólar sobrevalorizado nem a debilidade da indústria americana, a agressividade das exportações japonesas nem, muito menos, as barreiras de importação de produtos americanos. Caso estas barreiras fossem levantadas - o que seria extremamente desejável e já deveria ter sido feito há muito tempo - , a diminuição do déficit seria de, no máximo, de cinco a seis bilhões de dólares, de um total de cinquenta bilhões de dólares.

A causa principal é a drástica redução, no mundo todo, dos preços dos produtos primários, especialmente dos preços de produtos agrícolas e florestais. Comparados com os preços de bens manufaturados - especialmente os de grande valor agregado, como automóveis, máquinas fotográficas, eletrodomésticos e semicondutores, que constituem o grosso das exportações japonesas para os EUA - , s produtos primários têm hoje os preços mais baixos da história - incluído aí o período da Grade Depressão ( *2 vide nota de rodapé ). O Japão é o maior importador mundial de produtos primários e, com efeito, exceto a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas ( URSS  - atual Federação Russa ), o único grande importador mundial de alimentos, agora que o Mercado Comum Europeu ( MCE ) se transformou em exportador, e a China e a Índia atingiram o ponto de equilíbrio. e o Japão é o maior exportador mundial de bens manufaturados de alto valor agregado. Contrastando com isto, os EUA são o maior exportador mundial de produtos agrícolas e florestais. Se, levando isso em conta, o comércio entre EUA e Japão for ajustado, isto é, se a relação entre os preços de produtos primários e de bens manufaturados fosse ajustada para permanecer no mesmo nível que estava em mil novecentos e setenta e três, pelo menos um terço e talvez dois quintos do déficit comercial dos EUA frente ao Japão desapareceriam.

Entretanto, não há alguma medida que qualquer dos dois países possa tomar para corrigir este desequilíbrio: existe um excedente mundial de produtos primários que continuará ao longo dos próximos anos. Na verdade, a única ação que poderia ser tomada - e isto poderia acontecer se os EUA estivessem dispostos a iniciar uma guerra comercial com o Japão - seria se os orientais passassem a importar produtos primários ( algodão, tabaco, soja, trigo, milho, madeira, etc... ) de outro país. Eles poderiam fazer isto em menos de um ano, uma vez que já estão recebendo propostas de outros países para o fornecimento de grandes quantidades de todos estes produtos - a preços mais baixos do que os EUA estão vendendo, com uma taxa de câmbio mais vantajosa do que a de dólar-iene.

No entanto, os japoneses não conseguem vislumbrar alternativa política senão comprar dos americanos e, portanto, financiar o déficit dos EUA, mesmo correndo o risco de sofrer grandes perdas. De outra forma, o Japão teria de enfrentar uma taxa de desemprego ( estimada pelo menos o dobro da taxa americana, de sete por cento ) de uma magnitude que nenhum governo se arriscaria a aceitar. A economia interna do Japão tem se mantido estagnada desde o início dos anos oitenta e nenhuma das medidas adotadas pelo governo conseguiu reavivá-la. A pressão política no país é enorme. No entanto, o déficit do governo japonês já está em um nível tão elevado que aumentá-lo poderá desencadear um novo surto inflacionário. E o curto, porém severo, baque inflacionário sofrido pelos país em meados dos anos setenta convenceu muitos preocupados japoneses, especialmente no BJ e no Ministério das Finanças ( MF ), de que a resistência do país é baixa contra esta perigosa doença.

As exportações são responsáveis por cerca de quinze por cento dos empregos japoneses. Sem as exportações para seu principal cliente, a indústria automobilística e a indústria do aço ficariam em situação mais precária que a americana. Se, em mil novecentos e oitenta e cinco, a Nippon Steel ( NS ) já operava com baixíssimos sessenta por cento da capacidade ( dando, inclusive, prejuízo ), sem as exportações ela cairia para abaixo de quarenta por cento. Proporcionalmente, em comparação com a dos EUA, as indústrias do aço e automobilística são responsáveis no Japão por, pelo menos, o dobro da força de trabalho de operários. Este problema é agravado por três fatores em que a sociedade pós-guerra japonesa se baseia: a premissa do emprego vitalício; a inabilidade dos trabalhadores demitidos ou colocados à disposição de conseguir novos empregos tendo em vista a rigidez do sistema salarial do país; e pelo fato de o Japão não contar com um sistema de seguro-desemprego. Não surpreende, portanto, que os elaboradores e políticas prefiram sofrer perdas quase certas, mas futuras, sobre os empréstimos ao governo dos EUA a correr riscos políticos e sociais imediatos de conviver com altas taxas de desemprego no país.

Esta é a realidade econômica do relacionamento Japão-EUA. E explica, em grande parte, a razão pela qual os japoneses não ficaram até agora tão significativamente impressionados com as breves ameaças americanas de retaliação protecionista contra os produtos do país. Eles avaliam que os americanos dificilmente tomariam uma decisão que tanto ameaçaria sua já deprimida economia agrícola quanto forçaria os EUA a tomarem alguma providência em relação a seu déficit de governo. Até aqui, eles acertaram: os EUA ladram mas não mordem com sua boca sem dentes. Mas esta realidade indicaria também que o governo americano não consegue entender o que poderia ser feito.

Qualquer ação, por parte dos japoneses, que removesse barreiras para a entrada de empresas e produtos americanos não surtiria qualquer efeito material no desequilíbrio comercial. Mas poderia ser significativo impacto psicológico e remover um punhado de emoções que ameaçam envenenar o relacionamento entre os dois países. contudo, não passa de falta de entendimento da realidade política e econômica acreditar, como acreditava o presidente Reagan, que o Primeiro-Ministro japonês da época, Nakasone, ou qualquer outro líder político japonês, pudesse fazer concessões voluntárias. Ele devia ter espaço para culpar algum maldito estrangeiro, devia ser capaz ade dizer: "Fui forçado a ceder sob a ameaça das armas" - especialmente, porque a política japonesa estava sendo tão turbulenta naqueles dias que ninguém conseguia formar uma maioria confiável.

Mas a verdadeira implicação desta realidade é que a chave para o problema comercial EUA-Japão - e para o problema da posição competitiva dos EUA nos mercados mundiais, como um todo - não é m dólar mais barato, nem o aumento da produtividade americana ou custos comparativos de mão de obra mais baixos. Preços mais elevados de produtos primários ajudariam imensamente, mas há pouca possibilidade de que isto ocorra, em virtude dos superávits e da superprodução mundial. A raiz do problema americano é o déficit do governo dos EUA e a crescente dependência de empréstimos externos em prejuízo de o estímulo a poupança interna. Outras informações podem ser obtidas no livro As fronteiras da administração, de autoria de Peter F. Drucker.

P.S.:

Notas de rodapé:

* A lógica dos investimentos japoneses nos EUA é melhor detalhada em:


*2 O declínio do preços dos produtos primários é melhor introduzido em:

terça-feira, 30 de julho de 2019

Comércio internacional: os atalhos para a expansão ao mercado asiático

Nada parece mais óbvio para um ocidental do que a enorme dificuldade de fazer negócios com o Japão ou o mercado asiático com um todo. Mas nada espanta tanto os asiáticos quanto ouvir um ocidental exclamar: "Como isto é possível?".

"Apenas analise todas as empresas ocidentais que lideram seus respectivos mercados no Japão: IBM e Citibank, Coca-Cola, Amerecan Hospital Supply, chocolates suíços e barras de chocolate Mars, jeans Levi's e McDonald's. Há ainda diversas empresas estrangeiras, de menos porte, que também são líderes de seus mercados: por exemplo, a fabricante sueca de robôs especiais ou a fabricante de instrumentos analíticos do Meio Oeste americano. Partindo-se do princípio de que os produtos e serviços são de qualidade, o necessário para fazer negócios na Ásia é agir do jeito asiático.".

Mas este é exatamente o problema. O jeito asiático talvez não seja particularmente difícil, mas é bem diferente.

A primeira diferença - a que a maioria dos ocidentais tem mais dificuldade de compreender - é que não se faz negócios na Ásia. Um negócio não é uma atividade; é um compromisso. O agente de compras certamente encaminha seus pedidos, mas, antes, se compromete com um fornecedor - e com um relacionamento que, presumivelmente, é permanente ou, pelo menos, duradouro. E, até que o recém-chegado, seja asiático ou estrangeiro, dê provas de seu comprometimento recíproco, a agente de compras não comprará seus produtos, por melhor ou mais barato que sejam. O American Hospital Supply, hoje em dia, conta com a liderança do estritamente regulado mercado japonês, por exemplo, de assistência de saúde. Mas, quando iniciou suas atividades no país, em mil novecentos e quarenta e cinco, a empresa passou cinco anos batendo de porta em porta até conseguir assinar seu primeiro contrato. Com efeito, resultados rápidos no Japão quase sempre significam fracasso no final: você está fazendo negócio com as pessoas erradas.

O emprego vitalício ( prática japonesa ) - o comprometimento mais conhecido dos ocidentais - está, na verdade, se tornando um problema menor para o recém-chegado do exterior. Agências de emprego temporário estão florescendo no Japão, oferecendo de tudo, desde vendedores até secretárias e contadores. Mulheres maduras, com experiência anterior, reingressam no mercado como temporárias. Trabalhadores de chão de fábrica, que já não são necessários em grandes empresas por conta da automação, mas que não podem ser demitidos porque gozam de emprego vitalício, são recolocados por empréstimo. E profissionais e gerentes intermediários com experiência e boas conexões também estão disponíveis. Forçados a se aposentar de suas empresas japonesas aos cinquenta e cinco anos, estes profissionais se tornam disponíveis para as companhias estrangeiras.

Contudo, e todas as outras áreas, a ~enfase no comprometimento mútuo como base para fazer negócios está no crescimento. Isto é particularmente verdadeiro na área de serviços. O fabricante de um automóvel, de uma bomba ou de um refrigerador implicitamente se compromete a fornecer seus produtos enquanto ele durar.

Não faz muito sentido, portanto, tentar entrar no mercado japonês com um gigantesco investimento em uma instalação física. O modo mais inteligente é investir na construção de uma presença japonesa:investir em algumas pessoas e em seu treinamento em serviços, pesquisa e desenvolvimento de mercado e em promoções.

Acima de tudo, surte bom resultado investir, desde o começo, em ganhar reconhecimento como líder. a fidelidade à marca provavelmente é tão incomum no Japão quanto em qualquer outro país, mas reconhecimento de marca é muito importante. Quando se pregunta porque os supermercados em Tóquio vendem chocolate suíço, a resposta é: "Mas todos sabem que este é o melhor chocolate do mundo.". O reconhecimento da marca está por trás do sucesso no mercado japonês da Cross, em instrumento de escrita; da Millipore, empresa americana de Massachussetts, em tratamento de água; ou da Vickers Da Cost, corretora londrina de ações ( agora afiliada ao Citibank ), em câmbio de moeda estrangeira. Cada um destes exemplos de sucesso resultou da identificação de um nicho de mercado específico, seguido de um esforço concentrado para a obtenção de liderança.

Existem consideráveis diferenças estruturais ou culturais que não devem ser ignoradas. Uma delas - e os ocidentais logo se dão conta disto - é a regra de qual posto deve ser igual à idade dentro de um grupo social. Por exemplo, os gerentes de uma empresa. Dentro deste grupo, um jovem não pode ser o superior de um gerente mais velho. Por exemplo, Peter F. Drucker dizia não ter conhecido, pelos menos até os anos oitenta, alguma empresa japonesa em que o presidente seja mais velho que o chairman. Se, em uma empresa familiar, houver gerentes que não pertençam à família, mesmo o filho e herdeiro, em regra, não poderá fazer fazer parte da diretoria até que complete quarenta anos de idade. E um empregado público imediatamente se aposenta no instante em que um jovem for promovido antes dele. Entretanto, uma empresa estrangeira irá desejar - muito racionalmente - que um jovem de sua sede nos Estados Unidos da América ( EUA ) ou na Europa esteja à frente de sua subsidiária ou joint venture no Japão. Isto, em geral, condena o empreendimento ao fracasso. Os japoneses ficam paralisados - eles não sabem como se comportar. Para eles, a congruência de posto e idade não é um princípio da organização, mas da moralidade.

Tudo o que se precisa fazer, contudo, é recorrer a uma artimanha que os japoneses usam há séculos. O jovem não é um superior, e sim um consultor, ou consta da folha de pagamentos da empresa-mãe como agente de ligação e sequer aparece no mapa organizacional da subsidiária.

Outra grande distinção dia respeito à estrutura econômica: a posição do fabricante ou do fornecedor se baseis em diferença na estrutura financeira e em diferentes conceitos sociais. Ao fazer um supersimplificação, a expectativa é de que o fabricante ou fornecedor tanto financie o distribuidor quanto se responsabilize por ele. Uma razão para isto é que, no Japão, os distribuidores, sejam atacadistas ou varejistas, não têm fácil acesso a linhas de crédito. Os bancos foram originalmente organizados no sentido de canalizar a poupança pública para a indústria manufatureira - e, ainda hoje, é assim que entendem a si mesmos e sua função. Assim, espera-se que o fabricante financie a distribuição de seus bens. E, embora existam grandes e modernas empresas de distribuição - como lojas de departamento e cadeias de supermercados - , o grosso desta atividade ainda é executado através de empresas familiares de pequeno porte, ou por microatacadistas locais.

Isto explica a importância da trading company e o fato de que mesmo grandes fabricantes a utilizam para distribuir seus bens. Uma trading company é basicamente, um banco comercial para o atacadista ou para o varejista local e, secundariamente, a provedora de serviços administrativos para ambas, fornecendo as noções rudimentares de controle de inventário, contabilidade e até mesmo treinamento de pessoal. Novos entrantes, contudo, normalmente têm encontrado crescente dificuldade para se conectar a uma trading company. Experiências anteriores de empresas americanas com joint venture japonesas, como Mitsubishi, Sumitomo, Itoh ou Mitsui, funcionaram bem poque estes grupos podiam dar à joint venture acesso imediato ao financiamento da distribuição e aos serviços de distribuição e por meio de suas trading companies. Agora, a maior parte das trading companies estabelecidas já lida com produtos que competem com aqueles dos novos entrantes.

Este problema está melhorando, mas lentamente, no sentido de que os modernos sistemas de distribuição crescem. Por exemplo, os supermercados estão se tornando capazes tanto de se autofinanciar ( por meio de lucros retidos ) quanto de se autoadministrar ( sem um conselho de administração ) e, portanto, estão se tornando independentes das trading companies - ou até mesmo hostis a elas. No entanto, o novo entrante - especialmente a empresa ocidental - deve perceber que precisará criar uma linha de financiamento para seus distribuidores. Este procedimento foi o segredo do sucesso da coca-Cola no Japão, pois tornou o refrigerante, em poucos anos, líder de mercado no país. Mas o fabricante também ter á de organizar - e, em geral, fornecer - o serviço para seus produtos, uma vez que os revendedores locais não dispõem nem da mão de obra necessária nem da capacidade de gerenciamento.

Além disto, espera-se dos fabricantes que se responsabilizem por seus distribuidores e também pelos fornecedores. Isto está implícito em seu comprometimento. Geralmente, é trabalho do fabricante ajudar distribuidores ou fornecedores a obter o crédito bancário de que necessitam - talvez não pela garantia legal de seus empréstimos, mas por assumir a responsabilidade moral por seu pagamento. Espera-se também, embora em menor escala, que o fabricante os apoie, caso deparem com problemas: por exemplo, encontrando um comprador para a empresa distribuidora, em caso de morte de seu proprietário; ou um gerente executivo para um pequeno fornecedor, e assim por diante.

Contudo, o maior problema cultural para a empresa ocidental que deseja fazer negócios no Japão é a necessidade de um intermediário e a dependência que se cria sobre ele. Em grande parte, o governo japonês funciona por meio da concorrência entre diferentes facções, cada qual organizada na forma de um ministério. Por exemplo, o Ministério do Comércio Internacional e da Indústria ( MCII ), o Ministério das Finanças ( MF ), ou o Bank of Japan ( BJ ) - as três principais repartições na área econômica. Cada uma delas luta constantemente para aumentar seu poder e escopo de atuação, considerando os outros rivais. E cada uma delas é aliada a grupos na economia e na sociedade - por exemplo, determinada indústria ou facção política ou um candidato ao cargo de primeiro-ministro.

Esta é a razão pela qual até mesmo as grandes empresas japonesas não negociam diretamente com o próprio governo. Elas usam um intermediário, geralmente um alto funcionário aposentado do governo que conhece todos os meandros da máquina pública. Ele frequentou a mesma universidade que as pessoas hoje no poder frequentaram e, desta forma, consegue conversar com eles romando um drinque em um bar, e não no escritório. Por sua vez, ele será informado sobre a situação que se apresenta e como seu cliente, a empresa, deverá proceder para conseguir o que deseja. O intermediário poderá fazer perguntas difíceis e receber respostas francas e diretas. Mas, a não ser que o investidor estrangeiro tenha um parceiro japonês na forma de uma joint venture, nem sempre será muito fácil encontrar e identificar o intermediário mais adequado.

Sim, os amigos nipônicos estão certos quando dizem que é muito fácil fazer negócios no Japão, desde que sejam feitos do jeito que os japoneses fazem. Mas os amigos americanos também estão certos quando reclamam da enorme dificuldade de fazer negócios naquele país asiático. Mas será que eles têm escolha? Embora os japoneses não comprem muitos produtos importados, seu apetite por produtos fabricados em empresas dos EUA no Japão é aparentemente, insaciável. Segundo um estudo da McKinsey & Co., os japoneses gastaram, em mil novecentos e oitenta e quatro, oitocentos e sessenta dólares per capita em marcas americanas, em comparação com os duzentos e oitenta e sete dólares gastos por americanos em produtos japoneses. Outras informações podem ser obtidas no livro As fronteiras da administração, de autoria de Peter F. Drucker.

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sexta-feira, 26 de julho de 2019

Desenvolvimento: a convivência com o que há de errado e precário na economia

Ninguém, nos dias de hoje, fala de m milagre alemão, muito menos os próprios alemães. Não existem livros best-sellers sobre administração ao estilo alemão nem seminários do tipo "o que podemos aprender com os alemães?". Ainda assim, o desempenho econômico da Alemanha nestes últimos anos é tão impressionante quanto o do Japão - e mais sólido.

Há alguns décadas, a Alemanha produzia treze por cento de todos os bens industriais do comércio internacional e sua participação, já em um mercado expandido, em mil novecentos e oitenta e cinco, subiu para dezessete por cento. O país ainda está atrás dos Estados Unidos da América ( EUA ) - cuja participação é de vinte por cento. Mas a Alemanha está substancialmente à frente dos dezesseis por cento de participação do Japão. No entanto, a Alemanha não tem mais do que um quarto da população americana e apenas metade da do Japão. As importações industriais per capita do país são, portanto, quase o quádruplo das dos EUA e o dobro das do Japão.

E a Alemanha está bem mais equilibrada do que o Japão - que quase tem apenas um cliente dominante, os EUA, responsáveis por quase do total das principais exportações industriais do país. Diferentemente de praticamente todos os grandes exportadores japoneses, pesadamente dependentes dos clientes americanos, há apenas uma empresa na Alemanha, em bem pequena, a Porsche, que vende mais da metade de sua produção para os EUA. Nenhuma outra empresa do país exporta mais de dez por cento ou doze por cento de sua produção para o mercado americano. Um dólar agudamente desvalorizado representa uma dor de cabeça para boa parte das empresas alemãs, mas é uma calamidade para os fabricantes japoneses. No geral, não há u único cliente estrangeiro tão dominante que torne a Alemanha sua dependente.

é claro que existem problemas, alguns bem sérios. O desemprego, de nove por cento ( pode ser que este número esteja um pouco desatualizado quando este texto for lido ), embora em queda e mais baixo do que o da maioria dos países industriais da Europa, ainda é alto para os padrões da Alemanha. Entretanto, boa parte disto resulta, provavelmente, da demografia e se autocorrigirá. O baby boom alemão não arrefeceu a´te o final dos anos sessenta, isto é, seus ou sete anos após ter ocorrido nos EUA e mais de dez anos após o Japão. O resultado foi que grupos etários enormes estavam entrando no mercado de trabalho alemão até meados dos anos oitenta. Esta onda, contudo, já está passando e diminui rapidamente. Dentro de poucos anos, é provável que haja uma carência de jovens entrando na força de trabalho, o que leva a uma queda correspondente do desemprego.

Outro ponto delicado é a alta tecnologia. Até o momento, a Alemanha é uma séria concorrente apenas no setor de biotecnologia. ela está bem para trás em computadores, microeletrônica e telecomunicações. E, se o programa de capital e risco, patrocinado pelo governo, para novas empresas de alta tecnologia surtirá resultados, ainda será visto. Até o momento, o esforço alemão está concentrado, principalmente, em indústria mecânica de ponta ( por exemplo, bombas resistentes à corrosão ou a altas temperaturas; ou estufas automáticas ), e não em alta tecnologia.

A maior ameaça poderá ser os custos de mão de obra. A Alemanha está bem atrás tanto dos EUA quanto do Japão em automação de fábricas. Mas, embora os sindicatos alemães tivessem consciência da dependência do país em custos de mão de obra competitivos e tenham sido cometidos em sua demanda salarial, no momento que a atividade econômica estava se desacelerando, existissem crescentes sinais de que haveria pressão por aumento e fortes manifestações sindicais. Isto não poderia acontecer em um ano pior que o de mil novecentos e oitenta e seis, quando a então moeda alemã ( o marco ), estava se valorizando rapidamente frente ao dólar e, portanto, afetava diretamente os lucros das exportações e a posição competitiva do país. Se a economia germânica parasse em mio novecentos e oitenta e sete ou  em mil novecentos e oitenta e oito, teria sido, em grande parte, por conta dos custos de mão de obra, que a tornariam competitiva.

Apesar disto, as conquistas da Alemanha são suficientemente significativas para exigir maior atenção do que usualmente atrai. O que explica isto?

Existem, certamente, alguns fatores culturais. O principal deles é, provavelmente, o peculiar sistema alemão de treinamento de iniciantes, datado de cento e noventa anos. Jovens aprendizes que ingressam na força de trabalho passam três dias por semana no trabalho e dois e meio a três na escola durante aproximadamente dois anos. Assim, estas pessoas passam, simultaneamente, por experiência prática e por aprendizado teórico, tornando-se trabalhadores qualificados e técnicos treinados. E eles podem aplicar o que aprenderam na escola na manhã de sábado, em seu trabalho na segunda-feira pela manhã, e executar, na prática, na quarta-feira, a teoria que será explicada na aula do dia seguinte. Esta é, em grande parte, a explicação para o sucesso do país em aumentar a produtividade consistentemente: cria-se não só a atitude certa, mas também o fundamento teórico. Ficam abertas as portas também para a receptividade à mudança, exatamente da mesma forma que os círculos da qualidade funcionam no Japão,ou até melhor.

Entretanto, há também as políticas de governo. Os EUA têm louvado a economia da oferta ( supply-side economics ), embora venha praticando principalmente o keynesianismo nestes últimos anos. O governo alemão não faz muita louvação, mas pratica a economia da oferta pura, embora com grande moderação. O imposto sobre a renda de qualquer natureza ( IR ) sofreu cortes, em mil novecentos e oitenta e cinco, de oito bilhões de dólares - o equivalente nos EUA seria quase quatro vezes este valor. O governo naquele momento estava contemplando cortes ainda maiores para mil novecentos e oitenta e seis e mil novecentos e oitenta e sete. Talvez uma preparação para a reunificação que ocorreria em mil novecentos e noventa. Diversas empresas estatais foram, na prática, privatizadas, embora a extrema direita tenha vetado esta medida na maior delas, a estatal Lufhansa. Uma plêiade de regulações foi abolida ou abandada. Mercados de capital foram desregulados para permitir o acesso de pequenas e médias empresas ao mercado primário de ações, antes virtualmente fechado para elas.

Mas o verdadeiro segredo dos alemães provavelmente não é quem cultura nem governo e, sim, política de negócios. As gerências de primeira linha das empresas - com o apoio do governo e da opinião pública - tornaram a manutenção da posição competitiva de suas empresas e a prioridade número um e o principal objetivo de seu planejamento. Para quase todas elas, o mercado interno ainda é o maior cliente, assim como ocorre, é claro, com a maioria das empresas nos EUA e no Japão. Apesar disto, ao tomar uma decisão, as altas gerências alemãs, mesmo de empresas relativamente pequenas, provavelmente perguntarão em primeiro lugar: será que isto nos fortalecerá, ou enfraquecerá nos mercados mundias? estas são também as primeiras perguntas que um banqueiro alemão provavelmente fará ao analisar o financiamento de uma empresa. é também o principal argumento da direção das empresas, pelo qual, pelo menos até o momento, os sindicados demonstram interesse.

Os alemães gostam de acentuar o aspecto negativo; eles tendem a conviver com tudo que existe de errado ou precário na economia. Mas talvez faça sentido para quem está do lado de fora perguntar: Será que existe algo que seria possível aprender com as conquistas germânicas? Outras informações podem ser obtidas no livro As fronteiras da administração, de autoria de Peter F. Drucker.

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https://administradores.com.br/artigos/desenvolvimento-a-conviv%C3%AAncia-com-o-que-h%C3%A1-de-errado-e-prec%C3%A1rio-na-economia e

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quinta-feira, 25 de julho de 2019

Empreendedorismo: as rudimentares como base para as empresas de alta tecnologia

O empreendedorismo de alta tecnologia é a onda do momento na Europa, nos dias atuais. os franceses criaram um ministério poderoso encarregado de encorajar o empreendedorismo de alta tecnologia e torná-lo uma das principais prioridades do governo. Os alemães estão abrindo empresas financiadas por capital de risco segundo modelo americano e estão falando sobre ter seu próprio Vale do Silício. Eles até mesmo cunharam um novo termo - Untermehmer- Kultur ( cultura empreendedora ) - e estão se dedicando a redigir ensaios e organizando simpósios para discuti-los. Até mesmo os britânicos estão propondo que o governo ajude a criar novos empreendimentos de alta tecnologia em áreas como semicondutores, biotecnologia e telecomunicações.

Os europeus estão certos, é óbvio, ao se mostrarem preocupados com o aumento do abismo entre eles próprios e seus concorrentes americanos e japoneses. hoje em dia, sem capacitação e produção próprias em alta tecnologia, nenhum país pode esperar ser líder. No entanto, a crença europeia de que empreendedores de alta tecnologia são capazes de florescer por conta própria, sem estar incrustrados em uma economia empreendedora, é um equívoco total.

Uma das razões para isto é a política. A alta tecnologia por si só é a construtora dos empregos do futuro, e não dos empregos atuais. Para oferecer os novos empregos, tão necessários diante de uma crescente força de trabalho, o país precisa de uma grande quantidade de empreendedores de baixa tecnologia ou de nenhuma tecnologia - e os europeus não os desejam. Nos Estados Unidos da América ( EUA ), os empregos existentes nas mil maiores empresas listadas pela revista Fortune e nas repartições de governo diminuíram em cinco milhões de vagas nos últimos sessenta anos. O total de empregos, no entanto, aumentou de setenta e um milhões, em mil novecentos e sessenta e cinco, para cento e seis milhões, em mil novecentos e oitenta e quatro, por exemplo. Apesar disto, durante este período, a alta tecnologia ofereceu apenas cinco milhões de novos empregos, isto é, não compensou o que foi perdido nas indústrias pesadas de base e no governo. Todos os empregos adicionais da economia americana - trinta e cinco milhões - foram oferecidos por empreendimentos de média, baixa ou nenhuma tecnologia - fabricantes de instrumentos cirúrgicos, de equipamentos de ginástica para uso doméstico, de brinquedos, calçados esportivos, empresas de serviços financeiros, restaurantes étnicos e empresas aéreas de baixas tarifas.

Se a atividade empreendedora se confinar à alta tecnologia - e isto é o que os europeus estão tentando fazer - , o desemprego continuará a crescer à medida que as empresas pesadas básicas forem cortando a produção ou se automatizando cada vez mais. Nenhum governo - e, certamente, nenhum governo democrático - poderia, então, continuar a subordinar estas gigantes do passado, com todas as suas dificuldades, a um futuro incerto de alta tecnologia. Logo, logo, ele seria forçado pela realidade política a abandonar o apoio à alta tecnologia e redirecionar seus recursos para defender, subsidiar e salvar os empregadores existentes, especialmente as empresas pesadas de base, altamente sindicalizadas. As pressões para que isto fosse feito estão se avolumando rapidamente.

Na França, os comunistas saíram do governo, em mil novecentos e oitenta e três, exatamente por causa desta discussão. O Partido Socialista do Presidente François Mitterrand, especialmente sua poderosa e vociferante ala mais á esquerda, também estava cada vez mais insatisfeito com as políticas de alta tecnologia, que são, além disto, igualmente impopulares junto aos grandes empregadores. Com efeito, a Direita francesa, em sua tentativa de ganhar a maioria nas eleições parlamentares em mil novecentos e oitenta e seis, tornou a inversão das políticas industriais do Sr. Mitterrand sua principal plataforma eleitoral e passou a demandar que a França desse prioridade, à época,  aos empregos nas indústrias existentes e descartasse a política de empreendedorismo de alta tecnologia.

Na Alemanha, cresce regularmente a demanda para que se dê apoio a antigas empresas, a fim de manter empregos e se decline o acesso ao crédito e capital a novos empreendimentos. Os bancos já se encontram sob pressão de seus principais clientes, as empresas existentes, que esperam que eles não financiem qualquer eventual concorrente. Na Alemanha, os bancos são o principal canal - talvez o único - de obtenção de capital de crédito. Mesmo na Grã-bretanha, existe uma crescente pressão sobre o chefe de governo - especialmente dos membros de seu Partido Conservador, que temiam por seu destino nas eleições, pelo menos até que saísse o resultado dando à sigla a tão sonhada vitória. A pressão era para que o governo esquecesse todos os grandes planos a fim de encorajar o empreendedorismo de alta tecnologia e se concentrasse, em vez disto, na recuperação das antigas indústrias, que vão mal das pernas desde mil novecentos e oitenta e quatro, gestão da então Primeira-Ministra Conservadora, Margaret Thatcher.

Existe uma razão mais mais sutil, mas talvez mais importante pela qual o empreendedorismo de alta tecnologia com esta atividade. Falta o necessário apoio social. O empreendedorismo de alta tecnologia é o topo de uma enorme montanha - constituída de empreendedorismo de média, baixa e nenhuma tecnologia, permeando a economia e a sociedade - sobre a qual está alicerçado.

Nos EUA, seiscentos mil empresas são fundadas a cada ano - cerca de sete vezes mais do que nas prolíficas décadas de cinquenta e sessenta. Entretanto, não mais que um vírgula cinco por cento delas - cerca de dez mil por ano - são empresas de alta tecnologia. As quinhentas e noventa mil restantes variam de nenhuma tecnologia ( um novo restaurante étnico ou uma empresa de coleta de lixo ) a média tecnologia ( por exemplo, uma pequena fundição automatizada para a moldagem de peças especiais não ferrosas. entretanto, sem estas empresas, os empreendimentos de alta tecnologia estariam mortos no nascimento e não atrairiam, por exemplo, mão de obra altamente qualificada.

Na ausência de uma economia empreendedora, cientistas ou engenheiros teriam preferido ( como ocorre na Europa ) a segurança e o prestígio e um emprego em uma grande empresa. E um empreendimento de alta tecnologia precisa, além disto, de contadores, vendedores e gerentes. nenhum deles aceitaria trabalhar em novos e pequenos empreendimentos, de alta tecnologia ou não, a não se que isto se tornasse algo aceitável, para não dizer preferível. Há setenta anos, pessoas deste tipo, nos EUA, também preferiam as grandes empresas ou o governo para empregos e oportunidades de carreira. Hoje, o fato de eles estarem disponíveis para novos empreendimentos, apesar dos riscos e incertezas, é o que torna possível a economia empreendedora e os empregos criados por ela.

Mas o ímpeto para isto não teve origem na glamourosa atividade de alta tecnologia e, sim, na multiplicidade de empregos sem glamour, mas desafiadores, com boas oportunidades de carreira em todos os tipos de negócios de baixa ou  média tecnologia. São eles que proporcionam a existência de uma enorme economia empreendedora. A alta tecnologia oferece a imaginação, é certo, mas as outras empresas fornecem o pão de cada dia.

Além disto, as empresas de média, baixa ou nenhuma tecnologia permitem o financiamento da alta tecnologia. Ao contrário daquilo em que a maioria das pessoas acredita, os empreendimentos de alta tecnologia permanecem sem dar lucro por um longo tempo. A indústria mundial de computadores teve, em termos gerais, perdas durante trinta anos, só atingindo o ponto de equilíbrio no começo dos anos setenta. A IBM, certamente, ganhou muito dinheiro. Poucas outras - principalmente nos EUA - ficaram no vermelho nos anos sessenta. Mas estes lucros foram mais do que compensados pelas pesadas perdas das grandes empresas de eletrodomésticos: General Eletric ( GE ), Westinghouse, Siemens, Philips, RCA e outras. Da mesma forma, ainda decorrerão pelo menos dez anos antes que a indústria biogenética ou os fabricantes de robôs, como um todo, cheguem ao ponto de equilíbrio e, provavelmente, será possível dizer o mesmo, em termos gerais, a respeito da indústria de microcomputadores. Neste período, os empreendimentos de média, baixa ou nenhuma tecnologia proporcionarão o fluxo de lucros que financiará as necessidades de capital da alta tecnologia. Sem eles, dificilmente haveria capital disponível.

Até o momento, existe pouco reconhecimento destes fatos na Europa - e nenhum entre os governos deste continente. As coisas poderão mudar. O movimento empreendedor dos EUA teve início no anos setenta. A Europa Ocidental está claramente quinze anos atrasada em relação às mais importantes tendências demográficas americanas - o baby bust e a explosão de estudantes universitários. O baby bust sucedeu o baby boom. é o período entre mil novecentos e sessenta e um e mil novecentos e oitenta e um, especialmente nos EUA, local em que caiu a taxa de natalidade.

Nos EUA, estas tendências certamente são fatores que contribuem para a renovação de empreendedorismo. Com um enorme contingente  de baby boomers bem educados já com bons empregos, as oportunidades nas grandes empresas e no governo estão começando a se tornar escassas e os jovens que ingressam no mercado de trabalho desejam e estão ansiosos para se juntar a empreendimentos de pequeno e médio porte. Na Europa, os baby boomers estavam entrando no mercado nos anos oitenta.

Até aqui, no entanto, os governos europeus ainda se mostram hostis a empreendedores que não sejam das áreas de alta tecnologia ( na França, principalmente ). A legislação tributária europeia, por exemplo, os penaliza e restringe seu acesso a crédito e capital. Mas a sociedade do continente também desencoraja as pessoas, especialmente as jovens mais educadas, de fazer algo tão pouco refinado quanto ir trabalhar para qualquer um que não seja uma grande empresa já estabelecida ou o governo. A não ser que isto mude - , e até o momento, há poucos sinais de que isto venha a acontecer - , a paixão europeia anterior de alta tecnologia - o Concorde - , que terminou com muito pouca gloire, em um oceano de tinta vermelha, e sema liderança de empregos ou de tecnologia. Outras informações podem ser obtidas no  livro As fronteiras da administração, de autoria de Peter F. Drucker.

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quarta-feira, 24 de julho de 2019

Epidemiologia: vigilância aumenta em 80% notificações de focos do Aedes em SC

O último relatório da Diretoria de Vigilância de Epidemiológica ( DIVE ) da Superintendência de Vigilância em Saúde ( SUV ) da Secretaria de Estado da Saúde ( SES ) do Governo do Estado de Santa Catarina ( SC ) divulgado neste mês de julho de dois mil e dezenove, aponta a presença do mosquito Aedes aegypti em cento e oitenta e dois municípios catarinenses. São vinte e um mil quatrocentos e sessenta e sete focos identificados entre trinta de dezembro de dois mil e dezoito a treze de julho de dois mil e dezenove. Comparando ao mesmo período do ano de dois mil e dezoito, quando foram mapeados onze mil novecentos e vinte e oito focos em cento e cinquenta e dois municípios, houve um aumento de oitenta por cento no total de notificações.


O gerente de zoonoses ( GEZOO ) da DIVE, João Augusto B. Fuck, explica que neste ano de dois mil e dezenove as temperaturas demoraram a cair e houve um forte período com calor e chuva nos meses de abril e maio, o que favoreceu a proliferação do mosquito.
– Nosso cenário é de risco, o número de focos é o maior desde que foram identificados os primeiros em SC no ano de dois mil e seis e este número vem aumentando ano a ano – comenta Fuck.

São noventa e quatro municípios de SC considerados infestados pelo Aedes, a maioria concentrados na região Oeste. O número cresceu vinte e oito por cento em relação ao mesmo período de dois mil e dezoito, quando eram setenta e três localidades.


Casos da doença

Atualmente o Estado possui três cidades condição de epidemia, todas no Litoral Norte: Itapema com seiscentos e seis casos autóctones ( contraídos no local ), uma taxa de incidência de novecentos e cinquenta e oito vírgula um casos por cem mil habitantes, seguida por Camboriú com trezentos e quarenta e um confirmações e quatrocentos e vinte e um vírgula nove casos por cem mil habitantes e Porto Belo que conta com oitenta e quatro ocorrências e quatrocentos e três vírgula dois casos por cem mil habitantes.

A Organização Mundial da Saúde ( OMS ) considera o nível de transmissão epidêmico quando a taxa de incidência é maior que trezentos casos por cem mil habitantes.
Em dois mil e dezenove, ao todo, foram registrados mil trezentos e setenta e um casos da doença contraída em SC e cento e treze importados. Apesar de ser um indicativo expressivo, Fuck comenta que o Estado já viveu situação pior, em dois mil e dezesseis, quando os casos da doença passaram de quatro mil e oito municípios estavam em situação de epidemia. Na época, foram registrados os dois únicos casos fatais de SC, em Chapecó e Pinhalzinho.

Desta vez, destaca-se uma migração das ocorrências do Oeste para o Litoral.
– O Brasil teve um aumento expressivo nos casos de dengue e o Litoral se torna suscetível por que há uma grande circulação de pessoas que podem trazer a doença consigo e iniciar um ciclo de contágio. Outro fator é o deslocamento desta população entre estas cidades. Por exemplo, alguém que trabalha em Itapema e mora em Porto Belo contrai a doença. A movimentação diária deste indivíduo favorece a propagação do vírus.

A DIVE afirma que esta é uma movimentação natural da doença, há períodos de retração, como ocorreu em dois mil e dezessete e dois mil e dezoito, e outros de avanço.


Novos subtipos

Fuck explica que a expansão dos casos também está ligada ao avanço de um novo sorotipo de dengue no Estado, a DEN-2. Segundo ele, este subtipo foi observado pela primeira vez aqui em dois mil dezessete, mas só agora está tendo um maior número de vítimas.

– De modo geral, notamos que o sorotipo DEN-2 está circulando mais em todo o Brasil. Acredita-se que a expansão dele aqui ocorreu provavelmente durante a temporada, quando alguém com infectado este subtipo passou em SC e iniciou o processo de transmissão.
A dengue possui quatro sorotipos DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-4. O indivíduo só pode ser contaminado uma vez com cada subtipo, adquirindo imunidade após a infecção. Estima-se que neste ano de dois mil e dezenove a prevalência seja do tipo 1. A DIVE realizou o procedimento para determinar os subtipos em duzentos e cinquenta e três amostras, destas, cento e oitenta e cinco deram positivo para o tipo um e cinquenta e oito para o tipo dois.


Concentração de Focos em SC


Mapa indicativo de locais com a presença do Aedes Aegypti
Mapa indicativo de locais com a presença do Aedes Aegypti
(Foto: )


POR ONDE O AEDES AVANÇA

Fatores cruciais para o aumento do número de focos

Prazo de notificação

Boa parte dos casos confirmados e divulgados neste mês foram notificados em
abril ou maio, isso por que para notificar a suspeita os médicos têm um prazo de até sete dias, após o exame de será realizado pelo Laboratório Central ( LACEN ) de Saúde Pública que recebe mais sete dias, após este processo ainda há um período de sessenta dias para inclusão no Sistema de Informação de Agravos de Notificação ( SINAN ).
— Isto faz parte do processo para garantir a confiabilidade dos dados. Muitos casos que aparecem nas estatísticas agora, durante o período mais frio do ano, foram diagnosticados e tratados semanas atrás. Inclusive, a gente vem observando que há uma queda gradativa em número de notificações — conclui Fuck.

Falta de inseticida
Desde junho SC já não tem estoque do inseticida Malathion EW, enviado pelo Ministério da Saúde ( MS ) para o combate à dengue. O produto mata o mosquito Aedes aegypti e é usado em locais próximos àqueles onde moram ou trabalham pessoas que estão contaminadas com o intuito de controlar a proliferação da doença. Sobre a falta do inseticida Fuck confirma que este fato pode ter sim contribuído negativamente para a proliferação da doença, porém não aponta este fato como um fator decisivo para a situação atual.
— Nós conseguimos manter as ações previstas até o produto acabar. O uso deste inseticida é para eliminar o mosquito adulto e não é só isso que vai resolver o problema. Não adianta eliminar ele adulto e manter os criadouros —
fala o gerente.

O produto permanece em falta no MS e não há previsão de envio para o Estado que também não tem a intenção de fazer a compra do inseticida. De acordo com o MS, esta é a última estratégia de enfrentamento da dengue. O órgão enfatiza que a prevenção só ocorre com a eliminação dos focos de multiplicação do Aedes aegypti.
Política de enfrentamento

É responsabilidade de cada município realizar as atividades de mobilização contra a Dengue. De acordo com o gerente de zoonoses da DIVE, Fuck, nota-se que a maioria das prefeituras agem apenas após o início do processo de transmissão, o que torna muito mais complexo o processo, facilitando a proliferação da doença.
Fuck explicou ainda que órgão têm regionais de saúde com a responsabilidade de prestar apoio técnico às administrações municipais, no auxílio para aplicação de inseticida e indicação de ações, por exemplo. Existem biólogos da DIVE nas dezessete gerências regionais de saúde ( GRSs ). Há também técnicos agrícolas alocados em cidades com altos níveis de transmissão como Florianópolis, Itajaí, Joinville, Xanxerê, Chapecó e São Miguel do Oeste. Estes profissionais seriam responsáveis por prestar auxílio caso a caso.
Maus hábitos

A DIVE pontua que embora hajam campanhas de conscientização nota-se que a população na prática não mantém os cuidados básicos para evitar a proliferação do inseto.
Segundo o primeiro Levantamento Rápido de Índices de Infestação pelo Aedes aegypti ( LIRAa ) feito pelo MS sessenta por cento dos criadouros estão nos quintais e dentro das residências, em recipientes que acumulam água parada.

— Não adianta de nada o Estado fazer a sua parte e as pessoas não agirem. É preciso controlar a presença do Aedes aegypti, não podemos pensar apenas na dengue temos também chikungunya e zika. Ainda não temos casos destas duas últimas, mas se temos o vetor temos a chance de isso ocorrer — alerta Fuck.

De acordo com a DIVE, com a entrada do frio o mosquito adulto acaba sendo eliminado, porém os ovos podem ser altamente resistentes, com período desenvolvimento chegando a vinte dias. Entretanto, Fuck destacou que em local seco eles podem durar por mais de dois anos esperando condições favoráveis para eclodir.
— O inverno impacta o ciclo de reprodução dele, mas não acaba com o problema, apenas adormece. É nessa estação o momento de agir contra o vetor, assim na próxima não teremos o risco de surto em nível de epidemia. — recomenda Fuck.


Contribua para eliminar o mosquito da dengue


Agente de saúde realizando ação de busca de focos
(Foto: )

A Diretoria ressalta algumas orientações para evitar a proliferação de focos, são elas:
Evite usar pratos nos vasos de plantas. Se usá-los, coloque areia até a borda;

Guarde garrafas com o gargalo virado para baixo;

Mantenha lixeiras tampadas;

Deixe os depósitos d’água sempre vedados, sem qualquer abertura, principalmente as caixas d’água;

Plantas como bromélias devem ser evitadas, pois acumulam água;

Trate a água da piscina com cloro e limpe-a uma vez por semana;

Mantenha ralos fechados e desentupidos;

Lave com escova os potes de comida e de água dos animais no mínimo uma vez por semana;

Retire a água acumulada em lajes;

Dê descarga, no mínimo uma vez por semana, em banheiros pouco usados;

Mantenha fechada a tampa do vaso sanitário;

Evite acumular entulho, pois ele pode se tornar local de foco do mosquito da dengue;
Denuncie a existência de possíveis focos de Aedes aegypti para a Secretaria Municipal de Saúde.

Com informações do jornal Diário Catarinense.