quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Gestão de competências: Políticas e práticas de recursos humanos

Resumo


As políticas e práticas de recursos humanos de uma organização representam forças importantes para a modelagem das atitudes e dos comportamentos dos colaboradores. Neste texto, serão discutidos especificamente as práticas de seleção, os programas de treinamento e desenvolvimento e os sistemas de avaliação de desempenho. As pra´ticas de seleção de uma organização determinam que será contratado. Se forem elaboradas adequadamente, podem identificar candidatos competentes e ajustá-los apropriadamente às suas atribuições e à organização. A utilização dos aparatos de seleção adequados aumenta a probabilidade de que a pessoa certa seja escolhida para preencher uma vaga. Embora a seleção de colaboradores não seja uma ciência, algumas organizações não conseguem criar seu sistema de seleção de maneira a maximizar a probabilidade de adequação entre a pessoa e o trabalho. Quando se comete este erro, o desempenho do candidato escolhido pode ficar abaixo das expectativas. Pode haver necessidade de treinamento para melhorar as competências dele. Na pior dos cenários, ele pode revelar-se totalmente inadequado e precisar ser logo substituído. Da mesma forma, quando o processo de seleção resulta na contração de candidatos pouco competentes o que hão se ajustam à organização, eles provavelmente vão se sentir ansiosos, tensos e pouco confortáveis. Isto, por sua vez, pode aumentar a insatisfação com o trabalho. Os programas de treinamento podem afetar o comportamento no trabalho de duas maneiras. A mais óbvia é pelo aperfeiçoamento das competências necessárias para que o colaborador realize suas tarefas com sucesso. Isto aumenta o potencial de desempenho de alto nível. Evidentemente, a realização deste potencial é, em grande parte, uma questão de motivação. Um segundo benefício do treinamento é que ele melhora a auto-eficácia do colaborador. A auto-eficácia é a expectativa que o indivíduo tem em relação a ser capaz de executar os comportamentos necessários para chegar a um certo resultado. Para os colaboradores, estes comportamentos são as tarefas do trabalho, e o resultado é um desempenho eficaz. Os colaboradores com elevada auto-eficácia possuem fortes expectativas em relação às suas competências para ter um bom desempenho em situações novas. São confiantes por fazer com que os colaboradores se tornem mais dispostos a enfrentar as tarefas e a se esforçarem mais no trabalho. Em termos de expectativas, os indivíduos têm maior probabilidade de perceber seus esforços como um meio para  melhorar o desempenho. Uma das principais metas da avaliação de desempenho é analisar cuidadosamente a contribuição do desempenho de um indivíduo como base para decisões sobre alocação de recompensas. Se o processo de avaliação enfatizar os critérios errados ou avaliar imprecisamente o desempenho real no trabalho, os colaboradores poderão receber recompensas abaixo ou acima do merecido. Na discussão sobre a teoria da equidade, isto pode levar a consequências negativas, como a redução do esforço, o aumento do absenteísmo ou a busca de alternativas de trabalho fora da organização. Além disto, há evidências de que o conteúdo do sistema de avaliação influencia o desempenho e a satisfação dos colaboradores. Mais especificamente, o desempenho e a satisfação melhoram quando a avaliação é baseada em critérios comportamentais e orientados para resultados, quando as questões do desempenho e da carreira são abertamente discutidas e quando o colaborador tem a oportunidade de participar do processo de avaliação. 


Introdução


Boa aparte da personalidade do indivíduo é determinada pela hereditariedade. Por isto, muitas organizações que desejam funcionários extrovertidos e sociáveis focam seu processo de seleção na busca de candidatos com estes traços. Elas perceberam que é muito mais vantajoso contratar pessoas com os traços de personalidade desejados do que selecionar os candidatos com base na competência técnica e depois tentar mudar suas atitudes por meio de treinamento. Uma destas organizações é a Song, uma nova subsidiária da Delta Airlines, voltada para o mercado de tarifas mais baixas.


A Song pretende se diferenciar da concorrência por meio da eficiência e do entretenimento oferecido em seus voos. Ela procura comissários de bordo com senso de humor e com um jeito diferente de encarar as coisas. Seu processo de seleção busca estas características. Os candidatos têm de passar por testes em que eles cantam, dançam, recitam poemas ou até mesmo passam por situações de humilhação. Um dos comissários, por exemplo, só foi contratado depois de quinze minutos de apresentação da canção Mustang Sally.


Embora estes testes possam parecer absurdos, os dirigentes da Song os levam muito a sério. O presidente da empresa, John Selvaggio, os vê como um elemento vital de sua estratégia para tornar a nova organização lucrativa. Ao contratar uma força de trabalho animada, ele espera que a Song se torne tão popular que não terá necessidade de gastar muito com propaganda, e acredita que colaboradores simpáticos convencem os passageiros a se tornar clientes regulares.


A mensagem deste ponto da disciplina é que as políticas e práticas de recursos humanos - tais como seleção de colaboradores, treinamento e avaliação de desempenho - influenciam a eficácia da organização. A discussão será iniciada com a questão das contratações.


Práticas de seleção 


O objetivo da seleção eficaz é adequar as características individuais ( capacidade, experiência, etc. ) aos requisitos do trabalho. Quando a administração fracassa na adequação correta, tanto o desempenho como a satisfação do funcionário são prejudicados.


Instrumentos para a seleção


O que os formulários de admissão, as entrevistas, os testes para emprego, as verificações de históricos e as cartas pessoais de recomendação têm em comum? Todos são instrumentos com os quais se obtêm informações sobre um candidato a emprego, e que podem ajudar a organização a determinar se o indivíduo possui as habilidades, os conhecimentos e as competências ( capacidades ) para o trabalho em questão. Nesta seção serão revistos importante instrumentos de seleção: entrevistas, testes escritos e teste de simulação de desempenho.


Entrevistas


Na Coréia, no Japão e em muitos outros países asiáticos, as entrevistas com candidatos a emprego tradicionalmente não fazem parte do processo de seleção. As decisões são tomadas quase inteiramente com base em pontuação de exames, conquistas acadêmicas e cartas de recomendação. Mas não é este o caso da maioria dos demais países. Entre todos os instrumentos que uma organização utiliza para diferenciar candidatos a emprego, a entrevista continua a ser o mais frequente. Até as empresas asiáticas começam a utilizá-las como método de triagem.


As entrevistas não são apenas largamente utilizadas, elas também parecem ter um grande peso nas decisões. Seus resultados tendem a ter uma influência desproporcional no processo de seleção. O candidato que se sai mal na entrevista é em geral cortado da seleção, independentemente de sua experiência, dos resultados nos testes ou de suas cartas de recomendação. Por outro lado, muito frequentemente, a pessoa mais tarimbada nas técnicas de busca de emprego, em especial nas entrevistas, acaba sendo contratada, ainda que ela possa não se a mais adequada para a posição entre os candidatos.


Estas descobertas são importantes por causa da maneira não estruturada com que as entrevistas de seleção geralmente são conduzidas. As entrevistas não estruturadas - de curta duração, causais e compostas de perguntas aleatórias - provaram ser um instrumento ineficaz de seleção. Os dados coletados neste tipo de entrevista costumam ser tendenciosos e frequentemente não têm relação com o futuro desempenho na função. Sem a estruturação, diversos vieses podem distorcer os resultados. Estes vieses podem incluir o favorecimento de candidatos com perfil semelhante ao do entrevistador, um peso excessivo dado a informações negativas e a possibilidade de que a ordem em que as entrevistas são realizadas influencie as avaliações. O uso de um conjunto padronizado de perguntas, o emprego de um método uniforme de registro das informações e a padronização da classificação das qualificações dos candidatos podem ajudar a reduzir a variabilidade dos resultados e a melhorar a validade da entrevista como instrumento de seleção. Além disto, a eficácia deste instrumento aumenta com o uso de entrevistas comportamentais estruturadas. Esta técnica requer que o candidato descreva como costumava enfrentar determinados problemas e situações em seus empregos anteriores. Ela se baseia no pressuposto de que o comportamento anterior é o melhor previsor para o comportamento futuro.


As evidências revelam que as entrevistas são mais indicadas para valiar a inteligência, o nível de motivação e as habilidades interpessoais dos candidatos. Quando estas qualidades estão relacionadas ao desempenho no trabalho, a validade da entrevista como instrumento de seleção é maior. Por exemplo, tais qualidades se mostram relevantes para o desempenho em altas posições na administração. isto pode explicar por que os candidatos a estes cargos geralmente fazem dezenas de entrevistas com recrutadores de executivos, membros do conselho e outros executivos da empresa antes que se tome uma decisão. Pode explicar também por que as empresas que organizam o trabalho em equipes exigem dos candidatos um número muito grande de entrevistas.


Na prática, muitas organizações utilizam as entrevistas não só como instrumento de previsão de desempenho. Organizações tão diferentes quanto a Southwest Airlines, a Disney, ao Bank of America, a Microsoft, a Procter & Gamble e a Harrah's Entertainment as usam para avaliar a adequação entre o candidato e a organização. Desta forma, além de habilidades específicas e relevantes para o trabalho em si, as organizações procuram nos candidatos características de personalidade ( habilidades conceituais ), valores pessoais e outros traços semelhantes para encontrar indivíduos que se ajustam á cultura e à imagem da organização.


Testes escritos


Os testes escritos mais típicos incluem os de inteligência, aptidão, habilidade, interesse e integridade. Instrumentos de seleção muito populares durante longo tempo, os testes escritos tiveram sua utilização reduzida a partir do final da década de sessenta, especialmente nos Estados Unidos da América ( EUA ). O motivo é que eles eram frequentemente caracterizados como discriminatórios, e muitas organizações não os validaram, ou não puderam validá-los, por não considerá-los relacionados com o trabalho. Nos últimos quarenta anos, contudo, verifica-se uma retomada deste instrumento. Estima-se que a maioria das empresas listadas na Fortune 1000, bem como mais de sessenta por cento de todas as organizações norte-americanas, faça uso deste tipo de seleção. Os executivos reconheceram que existem testes confiáveis disponíveis e que eles podem prever quem vai se sair bem no serviço.


Testes de habilidade intelectual, de habilidade espacial e mecânica, de precisão de percepção e de habilidade motora demonstram ser indicadores moderadamente válidos para muitas funções operacionais não especializadas ou semi-especializadas em organizações industriais. Os testes de inteligência têm se mostrado indicadores particularmente bons para atividades que requerem complexidade cognitiva. Quando contratam pessoal para fábricas instaladas nos EUA, as indústrias automobilísticas japonesas se apoiam fortemente nos testes escritos para prever que candidatos terão melhor desempenho. Conseguir um emprego na Toyota, por exemplo, pode demandar três dias de testes e entrevistas. Os testes escritos geralmente focam habilidades como leitura, matemática, destreza mecânica e habilidade para trabalhar com outras pessoas.


À medida que os problemas éticos aumentaram nas organizações, os testes de integridade cresceram em popularidade. São testes escritos que procuram mensurar fatores como confiabilidade, atenção, responsabilidade e honestidade. Há evidências fortes de que estes testes podem prever a avaliação de controle de desempenho e comportamentos contraproducentes dos colaboradores, como roubos, problemas disciplinares e excesso de absenteísmo.


Testes de simulação de desempenho


Para descobrir se um candidato pode realizar um trabalho com sucesso, que fórmula seria melhor do que colocá-lo para trabalhar? Esta é, precisamente, a lógica dos testes de simulação de desempenho.


Apesar de os testes de simulação de desempenho serem mais complicados de desenvolver e mais difíceis de administrar do que os testes escritos, sua popularidade aumentou nas últimas décadas. isto parece se dever ao fato de que eles focam mais diretamente os requisitos relacionados ao trabalho do que a maioria dos testes escritos.


Os dois testes de simulação de desempenho mais conhecidos são a amostragem do trabalho e os centros de avaliação. O primeiro é mais indicado para trabalhos rotineiros, enquanto o segundo é mais relevante para o pessoal administrativo.


Os testes de amostragem do trabalho são simulações de parte do trabalho, ou de todo ele, que devem ser realizadas pelos candidatos. Ao elaborar cuidadosamente amostras do trabalho baseadas em tarefa específicas do cargo, a administração determina os conhecimentos, as habilidades e as competências ( capacidades ) necessários para cada função. Cada amostra de trabalho é, então, combinada com um elemento de desempenho correspondente. Este tipo de teste é amplamente utilizado para a contratação de mão de obra especializada, como soldadores, operadores de máquina, carpinteiros e eletricistas. Os candidatos a vagas para operários na fábrica da BMW na Carolina do Sul realizam testes de amostragem do trabalho. Eles têm noventa minutor para executar uma variedade de tarefas típicas em uma linha de montagem simulada, construída especialmente para este fim.


Os resultados dos experimentos com a amostragem do trabalho são impressionantes. Praticamente todos os estudos demonstram que estes testes conseguem validade superior à obtida pelos testes escritos de personalidade e de aptidão.


Um conjunto mais elaborado de testes de simulação do desempenho, desenhado especificamente para avaliar o potencial administrativo de um candidato, é ministrado em centros de avaliação. Neles, executivos de linha, supervisores e / ou psicólogos treinados avaliam candidatos, durante vários dias, à medida que eles passam por exercícios que simulam os problemas reais que poderão enfrentar na prática de seu trabalho. Com base em uma lista descritiva das dimensões às quais o candidato precisa atender, as atividades podem incluir entrevistas, exercícios de solução de problemas, discussões de grupo sem liderança e jogos empresariais. Por exemplo, um candidato pode fazer o papel de um executivo que precisa decidir como serão as respostas a dez memorandos em um período de duas horas.


Qual a validade dos centros de avaliação como instrumentos de seleção? As evidência da eficácia destes centros são impressionantes. Eles consistentemente demonstram resultados que preveem o desempenho futuro em posições gerenciais.


Programas de treinamento e desenvolvimento


Colaboradores competentes não permanecem competentes para sempre. As habilidades se deterioram e podem se tornar obsoletas. É por isto que as organizações gastam bilhões de dólares todo anos em treinamento formal. Por exemplo, recentemente foi divulgado que as empresas norte-americanas com mais de cem colaboradores gastaram mais de cinquenta e um bilhões em um ano em treinamento formal. IBM, Accenture, Intel, Lockheed Martin gastam, cada uma, mais de trezentos milhões de dólares todo anos no treinamento de seus colaboradores.


Tipos de treinamento


O treinamento pode incluir tudo, desde o ensino básico de leitura até cursos avançados de liderança empresarial. A seguir, serão resumidos quatro categorias genéricas de competências - linguagem, técnica, interpessoal e de solução de problemas. Além disto, serão discutidos sucintamente o treinamento ético.


Competências de linguagem


Um relatório recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico ( OCDE ) revelou que cinquenta por cento da população dos EUA é semi-alfabetizada, e cerca de noventa milhões de norte-americanos adultos são analfabetos funcionais. As estatísticas também mostram que cerca de quarenta por cento do total da mão de obra dos EUA, e mais de cinquenta por cento dos que têm ensino médio completo ( high school ), não possuem as competências necessárias para atuar no mercado de trabalho atual. O National Institute of Learning estima que este problema custa para as empresas norte-americanas cerca de sessenta bilhões de dólares por ano em perda de produtividade. Trata-se de um problema que atinge não apenas os EUA, evidentemente. É um problema internacional, que afeta desde os países mais desenvolvidos até os menos desenvolvidos.


Em muitos países do terceiro mundo, poucos colaboradores são alfabetizados ou concluíram o ensino fundamental ( o antigo primeiro grau ), situação que diminui muito as chances destas nações na competição em uma economia globalizada.


As organizações precisam oferecer, com frequência cada vez maior, treinamento básico de linguagem e matemática para seus colaboradores. Por exemplo, o trabalho na fábrica da Smith and Wessons de Springfield, em Massachussetts, está se tornando cada vez mais complexo. Os colaboradores precisam de mais competências em matemática para compreender os equipamentos de controle numérico, melhor competência em de leitura para interpretar as planilhas de processos e melhores competências de comunicação verbal para o trabalho em equipe. Uma auditoria revelou que os colaboradores teriam de possuir um nível de competência em compreensão de textos equivalente ao do ensino médio completo para realizar as suas tarefas na organização. Em cerca de trinta por cento dos quase setecentos colaboradores sem diploma universitário registraram pontuação abaixo das necessidades mínimas de competência em linguagem e matemática. Eles foram avisados de que não seriam demitidos, mas teriam de retomar os estudos básicos, em aulas pagas pela organização e ministradas durante o horário de trabalho. Depois do primeiro período de aulas, setenta por cento dos colaboradores já haviam atingido o nível mínimo necessário de competências. Esta melhora no patamar de competências os ajudou a melhorar seu desempenho. Eles demonstraram mais facilidade para redigir e compreender gráficos, tabelas e boletins e para trabalhar com frações e números decimais, além de melhorar a competência em comunicação e exibir um significativo aumento de autoconfiança.


Competências técnicas


A maioria dos treinamentos visa à atualização e ao aperfeiçoamento das competências técnicas dos colaboradores. O treinamento técnico  vem se tornando cada vez mais importante por duas razões: novas tecnologias e novos modelos de estruturas organizacionais.


O trabalho se modifica em função das novas tecnologias e da melhoria dos métodos. Por exemplo, o pessoal que trabalha em oficinas mecânicas precisou passar por um treinamento extensivo para aprender a lidar com os modelos mais recentes de automóveis, dotados de motores monitorados por computador, sistemas eletrônicos de estabilização e outras inovações. Da mesma forma, os equipamentos controlados por computador exigiram que milhões de operários aprendessem novas competências.


Competências interpessoais


Praticamente todos os colaboradores pertencem a uma unidade de trabalho. Até certo ponto, seu desempenho depende da competência de interagir eficazmente com seus colegas e chefes. Alguns colaboradores possuem excelentes competências interpessoais, mas outros precisam de treinamento para melhorá-las. Isto inclui aprender a ouvir, a comunicar as ideias de maneira mais clara e a ser um colaborador mais eficaz na equipe.


Habilidades para a solução de problemas


Os executivos, bem como muitos outros colaboradores que realizam tarefas não rotineiras, precisam solucionar problemas em seu trabalho. Quando estas competências são exigidas, mas o colaborador não as possui muito desenvolvidas, ele pode participar de um treinamento para a solução de problemas. Isto inclui atividades para desenvolver a lógica, o raciocínio e a competência de definição de problemas, além da competência de identificar as causas, desenvolver alternativas, analisar alternativas e selecionar soluções. Este tipo de treinamento tornou-se uma parte básica de quase todos os esforços organizacionais para a introdução das equipes autogerenciadas ou para a implantação da gestão da qualidade.


O que dizer do treinamento ético?


Uma pesquisa recente revelou que cerca de setenta e cinco por cento dos colaboradores das mil maiores organizações norte-americanas recebem algum tipo de treinamento ético. Este treinamento pode ser incluído para o desenvolvimento; ou ser oferecido periodicamente como um reforço dos princípios éticos. Mas ainda não há evidências claras de que é possível ensinar ética.


Os críticos argumentam que a ética se baseia em valores, e o sistema de valores é determinado ainda na infância. Quando as pessoas entram no mercado de trabalho, seus valores éticos já estão estabelecidos. Os críticos também afirmam que a ética não pode ser ensinada formalmente, pois tem de ser aprendida por meio do exemplo.


Os defensores do treinamento ético argumentam que os valores podem ser modificados e aprendidos na idade adulta. E, mesmo que isto não fosse possível, o treinamento ético seria eficaz por ajudar os colaboradores a identificar dilemas éticos e a tornar-se mais conscientes das questões éticas que fundamentam suas ações, além de reafirmar a expectativa da organização de que seus colaboradores ajam eticamente.


Métodos de treinamento


Os métodos de treinamento costumam ser classificados como formais ou informais, e no trabalho ou fora dos trabalho.


Historicamente, o significado de treinamento se restringia ao treinamento formal, planejado como antecedência e com formato estruturado. Contudo, evidências recentes indicam que setenta por cento do aprendizado para o trabalho é constituído de treinamento informal - não estruturado, não planejado e facilmente adaptável às situações e aos indivíduos - para ensinar competências e manter os colaboradores atualizados. Na verdade, a maioria dos treinamentos informais nada mais é do que fazer os colaboradores ajudarem uns aos outros. Eles compartilham informações e solucionam problemas de trabalho em conjunto. Provavelmente, a principal consequência desta tendência é que muitos executivos hoje apoiam o que costumava ser chamado de conversa fiada. Na fábrica da Siemens da Carolina do Norte, por exemplo, a administração reconhece que, para trabalhar, as pessoas não precisam estar na linha de produção. As conversas ao redor do bebedouro ou na cantina da organização não tratam, como acreditavam os executivos, de assuntos estranhos ao trabalho, como desportos ou política. A maioria delas é voltada para a busca de soluções para problemas do serviço. Por isto, a Siemens agora encoraja estes encontros casuais.


O treinamento no trabalho inclui rodízio de tarefas, programas de aprendizagem, preparação de substitutos eventuais e programas formais de mentores. A principal desvantagem deste tipo de treinamento é que ele gera uma ruptura no ambiente de trabalho, por isto, as organizações investem em treinamento fora do trabalho. Os cinquenta e um bilhões de dólares investidos em treinamento, aos quais houve referência anterior, são quase todos destinados a treinamento formal fora do trabalho. Quais os tipos de treinamento que se incluem nesta categoria? O mais comum continua a ser as palestras ao vivo. Mas isto também pode incluir sessões de vídeo, seminários, programas de autoaprendizado, cursos pela internet, aulas com transmissão por televisão via satélite e atividades em grupo que utilizam dramatizações e estudos de casos.


Nos últimos anos, o método de treinamento que provavelmente mais tem crescido é o informatizado, ou e-training.


A rede Kinko's, por exemplo, criou uma rede interna que permite a seus vinte mil colaboradores acesso a cursos on-line sobre tudo o que diz respeito à organização, dos produtos às políticas organizacionais. A Cisco Systems oferece o currículo de cursos em sua intranet, com o conteúdo organizado por cargos, tecnologias específicas e produtos. Embora mais de cinco mil organizações atualmente ofereçam parte de seu treinamento, ou todo ele, por meio da informatização, ainda não está muito claro o quanto este método é eficaz. Pelo lado positivo, a informatização permite que a organização tenha flexibilidade para levar o treinamento até o colaborador em qualquer lugar, a qualquer hora. Também parece ser um método rápido e eficiente. Por outro lado, o desenvolvimento de programas personalizados on-line é relativamente caro, muitos colaboradores sentem a falta da interação pessoal existente nas salas de aula, a possibilidade de distração é maior na frente de um computador e não existe alguma garantia de que os colaboradores estão realmente aprendendo alguma coisa.


Individualização do treinamento formal ajustar-se ao estilo de aprendizado do colaborador


A maneira pela qual as pessoas processam, internalizam e memorizam coisas novas e difíceis não é necessariamente a mesma para todas. Este fato significa que o treinamento formal efetivo deve ser individualizado para refletir o estilo de aprendizado de cada colaborador.


Alguns exemplos de diferença de estilo podem ser observados na leitura, observação, escuta e participação. Algumas pessoas absorvem melhor as informações quando as leem. É o tipo de gente capaz ad aprender a lidar com computadores lendo um manual em uma sala. Outras pessoas aprendem melhor observando. Elas observam os outros e imitam o comportamento observado. Observam alguém utilizando o computador e fazem o mesmo depois. Os bons ouvintes dependem basicamente de sua capacidade de ouvir para absorver as informações. Podem preferir aprender a lidar com um computador por meio de uma aula gravada em fita de áudio. As pessoas com estilo participativo aprendem fazendo. Querem sentar-se diante do computador e aprender na prática.


Pode-se traduzir estes estilos em diferentes métodos de aprendizagem. Para maximizar o aprendizado, os leitores devem receber livros ou outros materiais impressos; os beneficiados com palestras ou fitas de áudio; ops participativos são mais beneficiados com oportunidades de experiências em que possam simular e praticar as novas habilidades.


Estes estilos de aprendizado não são, é evidente, mutuamente excludentes. Na verdade, os bons professores reconhecem que seus aprendizes aprendem de maneiras diferentes e, por isto, empregam múltiplos métodos de ensino. Recomendam leituras para antes das aulas; dão aulas expositivas; utilizam meios audiovisuais para ilustrar conceitos; levam os estudantes a participar de projetos de grupo, análises de casos, dramatizações e exercícios de experimentação. Se for sabido qual o estilo de aprendizado dos seus colaboradores, pode elaborar um programa de treinamento formal de modo a maximizar estas preferências. Caso não conheça as preferências, é melhor elaborar um programa que utilize uma variedade de estilos diferentes. A ênfase em um de método pode prejudicar aqueles que não têm muita afinidade com ele.


Avaliação de desempenho


Você estudaria de maneira diferente ou dedicaria um esforço maior a um cursos cuja avaliação fosse da letra A até a F do que a outro em que houvesse apenas aprovação ou reprovação? Quando esta pergunta é feita a estudantes, costumam-se aparecer respostas afirmativas. Os aprendizes dizem que, quando a avaliação tem diversos níveis, eles estudam mais. Quando a questão é apenas ser aprovado ou reprovado, estudam apenas o suficiente para a aprovação.


Isto ilustra como os sistemas de avaliação de desempenho influenciam o comportamento. Os principais determinantes de seu comportamento em sala de aula e de sua dedicação aos estudos são os critérios e técnicas que os professores utilizam para avaliar seu desempenho escolar. Obviamente, o que se aplica a estudantes também se aplica aos colaboradores de uma organização. Nesta seção, será mostrado como a escolha de um sistema de avaliação de desempenho - e a forma como ele é administrado - pode ser uma importante força a influenciar o comportamento dos colaboradores.


Propósitos da avaliação de desempenho


A avaliação de desempenho serve a diversos propósitos dentro das organizações. Os executivos utilizam as avaliações para diversas decisões de recursos humanos. As avaliações de desempenho identificam necessidades de treinamento e desenvolvimento: identificam as competências dos colaboradores que se encontram inadequadas e para as quais podem ser desenvolvidos programas de melhoria. As avaliações de desempenho podem ser usadas como critérios de validação de programas de seleção e desenvolvimento. Os colaboradores recém-contratados que não estejam apresentando com desempenho podem ser identificados pela avaliação. De maneira semelhante, a eficácia dos programas de treinamento e desenvolvimento pode ser determinada por intermédio dos resultados da avaliação de desempenho dos colaboradores que deles participaram. As avaliações também atendem ao propósito de fornecer feedback aos colaboradores sobre como a organização vê o trabalho deles. Além disto, são usadas como base para a alocação de recompensas. Decisões sobre quem receberá aumento de remuneração por mérito e outras recompensas deste tipo costumam ser tomadas com base nas avaliações de desempenho.


Cada ma destas funções da avaliação de desempenho é igualmente importante. Mas sua importância relativa depende da perspectiva em que são consideradas. Várias delas são obviamente relevantes para as decisões da área de recursos humanos. o interesse aqui, no entanto, está no comportamento organizacional. Consequentemente, a ênfase será a avaliação de desempenho como mecanismo de fornecimento de feedback e como determinante da alocação de recompensas.


Avaliação de desempenho e motivação


O modelo de motivação da expectativa é o que oferece atualmente as melhores explicações sobre o que influencia a quantidade de esforço que uma pessoa dedica ao seu trabalho. Um componente vital deste modelo é o desempenho - especificamente, as relações entre o esforço e desempenho e entre desempenho e recompensa.


Mas o que define o desempenho? No modelo da expectativa, é a avaliação individual de desempenho. Para maximizar a motivação, as pessoas precisam perceber que os esforços que elas realizam conduzem a uma avaliação de desempenho favorável e que esta avaliação vai resultar em recompensas às quais dão valor.


De acordo com este modelo, é possível esperar que as pessoas trabalharão em um nível bem abaixo de seu potencial se os objetivos que elas devem atingir forem pouco claros, se os critérios de mensuração destes objetivos forem vagos, se os colaboradores não acreditam que seus esforços conduzirão a uma avaliação satisfatória de seu desempenho ou se pensarem que haverá uma recompensa satisfatória quando tais objetivos forem conquistados.


No mundo real das organizações, uma das explicações para a falta de motivação dos colaboradores é que a avaliação de desempenho costuma ser mais política do que objetiva. muitos executivos colocam a objetividade depois de seu interesses pessoais - manipulando deliberadamente as avaliações para obterem os resultados que desejam.


O que é avaliado?


Os critérios de avaliação que a administração escolhe para julgar o desempenho dos colaboradores terão muita influência sobre o comportamento deles. Dois exemplos podem ilustrar esta questão.


Em uma agência governamental de empregos, onde empregadores buscam colaboradores e colaboradores buscam colocação, os entrevistadores são avaliados pelo número de atendimentos que realizam. Consistentemente com a tese de que o critério de avaliação influencia o comportamento, os entrevistadores enfatizam o número de entrevistas conduzidas, e não a colocação dos candidatos nas varas de emprego.


Um consultor especializado em pesquisa sobre o trabalho da polícia percebem que, em uma comunidade, os policiais chegavam para trabalhar, entravam nas viaturas e ficavam dando voltas pela principal avenida da cidade durante todo o turno. Obviamente, este tráfego incessante pouco tem a ver com o bom trabalho de policiamento, mas tal comportamento tornou facilmente compreensível quando o consultor descobriu que prefeitura utilizava a quilometragem das viaturas policiais como base para avaliar a eficácia do trabalho da instituição.


Estes exemplos demonstram a importância dos critérios na avaliação de desempenho. E isto, evidentemente, leva à seguinte questão: o que a administração deve avaliar? As três categorias de critérios mais comuns são os resultados individuais da tarefa, os comportamentos e os traços.


Resultados individuais da tarefa


Se os fins justificam os meios, os executivos devem avaliar os resultados das tarefas dos colaboradores. Utilizando este critério, o gerente de uma fábrica seria valiado com base em aspectos como volume de produção, quantidade de resíduos e custo unitário de produção. Um vendedor seria avaliado pelo volume geral de vendas de seu território, o aumento da receita de vendas e o número de novos clientes.


Comportamentos


Em muitas situações, é difícil identificar resultados específicos que possam ser atribuídos diretamente às ações de um colaborador. Isto é particularmente verdadeiro para os colaboradores administrativos ou aqueles cujas atribuições são parte intrínseca de um esforço de grupo. neste último caso, o desempenho do grupo pode ser prontamente avaliado, mas pode ser difícil, ou até impossível, determinar a contribuição de cada colaborador. Nestas circunstâncias, não é raro que os executivos avaliem o comportamento dos colaboradores. Usando os exemplos citados, no caso do gerente de fábrica, os comportamentos avaliados poderiam incluir a rapidez na entrega dos relatórios mensais ou o seu estilo de liderança. No caso do vendedor, poderia-se avaliar o número de contatos feitos por dia ou o número de dias livres por motivo de saúde usados no ano.


Repare que estes comportamentos não precisam estar diretamente relacionados à produtividade individual. Ajudar os outros, fazer sugestões para melhorias e oferecer-se voluntariamente para atribuições extraordinárias são ações que tornam os grupos de trabalho e as organizações mais eficazes. Desta forma, a inclusão de fatores subjetivos ou contextuais em uma avaliação de desempenho - desde que tais fatores contribuam para a eficácia da organização - não apenas faz sentido como pode também melhorar a coordenação, o trabalho de equipe, a cooperação e o desempenho geral da organização.



Traços


A categoria mais fraca de critérios, embora ainda seja amplamente utilizada pelas organizações, é a dos traços individuais. É dito que esta categoria é a mais fraca, em comparação com as duas anteriores, porque está mais distante do desempenho real no trabalho. Traços como demonstrar uma boa atitude, mostrar confiança, ser confiável, parecer ocupado ou possuir riqueza de experiências podem ou não estar relacionados com resultados positivos no trabalho, mas todos sabem que estes aspectos são frequentemente utilizados nas organizações como critérios de avaliação de desempenho.


Quem deve fazer a avaliação?


Quem deve avaliar o desempenho dos colaboradores? A resposta mais óbvia seria o chefe imediato. Tradicionalmente, a autoridade de um executivo inclui a avaliação do desempenho de seus subordinados. A lógica que sustenta esta tradição parece ser a que, já que o executivo é o responsável pelo desempenho de seus colaboradores, é que ele quem deve fazer tal avaliação. Mas esta lógica pode não estar correta. Outras pessoas podem estar mais habilitadas para realizar melhor esta tarefa.


Superior imediato


O chefe imediato do colaborador costumava ser a fonte mais comum de avaliação de desempenho, mas isto não acontece mais, principalmente por causa das sérias limitações deste método. Muitos chefes não se sentem qualificados para avaliar as contribuições específicas de cada um de seus colaboradores. Outros não querem a sensação de responsabilidade sobre a carreira dos subordinados. Além disto, como muitas organizações utilizam equipes autogerenciadas, telecomutação e outras ferramentas organizacionais que distanciam os chefes dos subordinados, o superior imediato de um colaborador pode não ser o juiz mais confiável para avaliar o desempenho dele.


Colegas


As avaliações feitas pelos colegas constituem uma das fontes mais confiáveis de julgamento. Por que? Primeiro porque os colegas estão perto da ação. As interações diárias oferecem uma visão abrangente do desempenho de um funcionário. Segundo, utilizar os colegas como juízes resulta em diversos julgamentos independes. Um chefe pode oferecer uma única avaliação, mas os colegas oferecem múltiplas avaliações. E a média entre as diversas avaliações geralmente é mais confiável do que apenas um julgamento individual. Por outro lado, os aspectos negativos disto podem ser a indisposição para julgar o trabalho de um colega e os vieses resultantes das relações de amizade ou de animosidade.


Auto-avaliação


Fazer com que os colaboradores avaliem o próprio desempenho é consistente com valores como o autogerenciamento e autonomia deles. A auto-avaliação é bem recebida pelos colaboradores. Este processo costuma atenuar a postura defensiva em relação à avaliação e é um veículo excelente para estimular as discussões sobre o desempenho no trabalho entre colaboradores e seus superiores. Isto explica a sua crescente popularidade. Uma pesquisa recente revelou que atualmente cerca de metade dos executivos e cinquenta e três por cento dos colaboradores participam diretamente de seus processos de avaliação.


Contudo, como se pode imaginar, este processo sofre com o risco de vieses autocondescendentes e superestimados. Além disto, a auto-avaliação raramente concorda com a avaliação dos superiores. POr causa destas sérias desvantagens, a autoavaliação é mais indicada para propósitos de desenvolvimento do que de avaliação, ou combinada com outros métodos para reduzir as margens de erros.


Subordinados imediatos


Uma quarta fonte de julgamento são os subordinados imediatos de um chefe. Seus defensores argumentam que levar em conta estas opiniões é consistente co as recentes tendências de valorização da honestidade, da transparência e da autonomia dos colaboradores.


As avaliações feitas pelos subordinados imediatos podem oferecer informações precisas e detalhadas sobre o comportamento do administrador, pois os avaliadores estão em contato frequente com o avaliado. O problema óbvio deste sistema é o medo de represálias em virtude de avaliação negativa dada ao chefe. Por este motivo, a garantia de anonimato é crucial para que este tipo de avaliação seja preciso.


Avaliações de trezentos e sessenta graus


A última abordagem para julgar o desempenho é a avaliação trezentos e sessenta graus. Ela fornece um feedback acerca do desempenho dado por todos aqueles que formam o círculo de contatos diários do colaborador, desde o pessoal da correspondência até os chefes e colegas. o número de avaliações pode ir de apenas três ou quatro e chegar a té mais de vinte e cinco; na maioria das organizações, este número fica entre cinco e dez por colaborador.


Uma pesquisa recente indica que cerca de vinte e um por cento das organizações norte-americanas estão utilizando este tipo de programa. Entre as empresas que adotaram esta abordagem estão a Alcoa, a Du Pont, a Levi Strauss, a Honeywell, a UPS, a Sprint, a Amoco, a AT&T e a W.L. Gore & Associates.


Qual o atrativo das avaliações de trezentos e sessenta graus? Elas se inserem bem nas organizações que adotam equipe s de trabalho, envolvimento dos colaboradores e programas de qualidade total. Ao contar com o feedback de colegas, clientes e subordinados, estas organizações esperam dar a cada indivíduo um sentimento maior de participação no processo de revisão e obter uma leitura mais precisa do desempenho dos colaboradores. Em relação a este último ponto, as avaliações de trezentos e sessenta graus são consistentes com as evidências de que o desempenho deles varia de acordo com o contexto e que as pessoas se comportam de maneira diversa com diferentes interlocutores. O uso de diversas fontes, portanto, traz uma possibilidade maior de conseguir capturar todos os aspectos do comportamento.


As evidências sobre a eficácia das avaliações de trezentos e sessenta graus são controversas. Este método oferece aos colaboradores uma perspectiva mas ampla de seu próprio desempenho. Mas também pode ser mal utilizado. Por exemplo, algumas organizações, por questão de economia, não treinam os avaliadores sobre como fazer críticas construtivas. Outros problemas incluem a permissão para o colaborador escolher os colegas e subordinados que farão a avaliação, o que pode influir nos resultados; e a dificuldade de conciliar as possíveis contradições entre os grupos de avaliação.


Métodos de avaliação de desempenho


Pergunta-se: como se avalia o desempenho de um colaborador? Ou seja, quais são as técnicas específicas para esta avaliação? Esta seção examina os principais métodos de avaliação de desempenho.


Relatórios escritos


Provavelmente, o método mais simples de avaliação é fazer um relatório descrevendo os pontos fortes e fracos do colaborador, seu desempenho anterior, seu potencial e sugestões para aperfeiçoamentos. O relatório escrito não requer formulários complexos nem treinamento intenso, mas os resultados geralmente refletem a habilidade de quem o escreveu. Uma avaliação pode ser boa ou má graças tanto às competências de escrita do avaliador como ao nível real do desempenho da pessoa que é avaliada.


Incidentes críticos


Os incidentes críticos focam a atenção do avaliador naqueles comportamentos que são o divisor de águas entre a realização eficaz ou ineficaz de um trabalho. O avaliador descreve, por escrito, as coisas feitas pelo colaborador que foram especialmente eficazes ou ineficazes. A questão aqui é que são citados apenas comportamentos específicos, o que exclui traços de personalidade vagamente definidos. Uma lista de incidentes críticos oferece um rico conjunto de exemplos para mostrar ao colaborador quais são os comportamentos desejáveis e quais são os que precisam ser melhorados.


Escalas gráficas de mensuração


Um dos métodos mais antigos e populares de avaliação é o uso das escalas gra´ficas de mensuração. Neste método, lista-se uma série de fatores de desempenho, como qualidade e quantidade do trabalho, profundidade do conhecimento, cooperação, lealdade, comparecimento, honestidade e iniciativa. O avaliador examina a lista e classifica o colaborador em cada fator, de acordo com uma escala incremental. As escalas geralmente têm cinco pontos e um fator como conhecimento da tarefa pode receber de um ( pouco informado sobre as suas atribuições ) a até cinco pontos ( total mestria em relação a todas as fases da tarefa ).


Por que este método é tão popular? Embora não produza informações tão aprofundadas quanto as do relatório escrito e as dos incidentes críticos, ele permite elaboração e administração rápidas, além de análise e comparação quantitativas.


Escalas de mensuração com âncora comportamental


As escalas de mensuração com âncora comportamental combinam com os principais elementos dos incidentes críticos e da abordagem das escalas gra´ficas de mensuração. O avaliador dá notas ao colaborador com base em uma série de itens, mas a pontuação reflete o comportamento real no trabalho, e não descrições ou traços gerais.


Esta escala identifica comportamentos específicos, observáveis e mensuráveis relativos ao trabalho. É possível colher exemplos de comportamentos relacionados ao trabalho e de dimensões do desempenho pedindo aos participantes que deem descrições específicas de comportamentos eficazes e ineficazes para cada dimensão do desempenho. Estes exemplos comportamentais são, então, traduzidos em uma série de dimensões de desempenho, cada uma com diversos níveis. O resultado deste processo são descrições comportamentais, como antecipa, planeja, executa, resolve problemas imediatos, cumpre ordens e enfrenta situações de emergência.


Comparações multipessoais


As comparações multipessoais avaliam o desempenho de um indivíduo em comparação com o desempenho de uma ou mais pessoas. É um instrumento de medição mais relativo que absoluto. as duas comparações mais populares são a classificação por grupo e a classificação individual.


A classificação por grupo requer que o avaliador coloque cada funcionário dentro de uma determinada faixa, como entre os primeiros vinte por cento ou entre os segundos vinte por cento. Esta método é frequentemente utilizado quando se recomendam estudantes para cursos de pós-graduação. os avaliadores perguntam se o estudante está entre os cinco por cento melhores da classe, os cinco por cento seguintes, os quinze por cento seguintes, e assim por diante. Quando utilizado pelos gerentes para avaliar seus colaboradores, eles avaliam todos os subordinados. Por isto, se a classificação cobre vinte colaboradores apenas quatro podem estar nos primeiros vinte por cento e, evidentemente, quatro terão de ficar entre os últimos vinte por cento.


A classificação individual ordena os colaboradores do melhor ao pior. Se um executivo precisa avaliar trinta empregados, esta abordagem assume que a diferença existente entre o primeiro e o segundo colocado será a mesma existente entre o vigésimo-primeiro e o vigésimo-segundo. Ainda que alguns deles fiquem bem próximos entre si, este método não permite o empate. O resultado é uma classificação clara dos empregados, indo do melhor desempenho até o pior.


Os métodos de comparações multipessoais podem ser combinados entre si para a obtenção de resultados tanto no padrão absoluto como no relativo. Por exemplo, estudos recentes realizados nas universidades da Ivy League revelaram fortes evidências de inflação nas notas. Em anos recentes, quarenta e seis por cento de todas as notas dos estudantes de Harvard foi A. Em Princeton, quarenta e três por cento das notas de todos os estudantes foram A. Com apenas doze por cento com notas B. Um  meio para estes universitários lidarem com o problema seria solicitar aos professores que incluíssem, além da letra representando a nova absoluta, dados relacionados com o tamanho da classe e uma classificação geral. Assim, um empregador potencial ou uma escola graduada poderiam olhar para dois estudantes que receberam A no curso de geologia física e tecer diferentes conclusões sobre cada um poque ao lado de cada nota estará registrado que se trata do segundo colocado de um total de vinte e seis, enquanto ao lado da nota de outra estará décimo-quarto entre trinta. Obviamente, o primeiro estudante se saiu melhor do que o segundo.


Sugestões para a melhoria das avaliações de desempenho


O processo de avaliação de desempenho é um campo potencial de problemas. Por exemplo, os avaliadores podem cometer erros como o efeito de halo, leniência ou similaridade, ou utilizar o processo com propósito políticos. Eles podem, inconscientemente, superestimar a avaliação ( leniência positiva ), subestimar o desempenho ( leniência negativa ) ou permitir que o julgamento de uma característica afete indevidamente o julgamento de outra ( o efeito de halo ). Alguns avaliadores tornam seus julgamentos tendenciosos por favorecer, inconscientemente, pessoas que têm qualidades ou traços semelhantes ao seus ( erro de similaridade ). E, evidentemente, existem aqueles que veem o processo de avaliação como uma oportunidade política para abertamente recompensar ou punir colaboradores. Embora não existam salvaguardas que garantam a precisão das avaliações, as sugestões a seguir podem ajudar significativamente a tornar o processo mais objetivo e justo.


Enfatizar mais os comportamentos do que os traços


Muitos dos traços frequentemente considerados relevantes para o desempenho podem não ter qualquer relação com a prática do trabalho. Por exemplo, traços como lealdade, iniciativa, coragem, confiabilidade e auto-expressão são intuitivamente vistos como características desejáveis nos colaboradores, mas a questão relevante é a seguinte: os indivíduos que possuem tais traços apresentam realmente um desempenho melhor? Não é fácil responder a esta pergunta: Sabe-se que há colaboradores com tais traços como lealdade e iniciativa, mas não existem evidências de que certos traços sejam sinônimo de bom desempenho em uma grande gama de funções.


Outro ponto fraco da avaliação de traços é o julgamento em si. O que é lealdade? Quando um colaborador pode ser considerado confiável? O que é lealdade para um pode não ser para outro. Portanto, os traços apresentam dificuldade de raramente conquistarem unanimidade de opiniões.


Documentar para a melhoria das avaliações de desempenho


Os diários ajudam os avaliadores a organizar melhor as informações em sua memória. As evidências indicam que, com a manutenção de um diário dos incidentes críticos de cada colaborador, as avaliações tendem a ser mais precisas e menos propensas a erros de interpretação. Os diários costumam reduzir, por exemplo, os erros de leniência e de halo porque mantêm o foco do avaliador nos comportamentos relacionados ao desempenho, e não nos traços do colaborador.


Utilizar múltiplos avaliadores


À medida que cresce o número de avaliadores, aumenta a probabilidade de se obter informações mais precisas. Se os erros de avaliação tendem a seguir uma curva normal, um aumento do número de avaliadores vai provocar uma concentração da maioria no meio. Este tipo de avaliação é utilizado em competições desportivas como saltos ornamentais ou ginástica. Um conjunto de avaliadores julga as apresentações, a nota mais alta e a mais baixa são descartadas e a pontuação final resulta da soma das notas dos outros juízes. A lógica dos múltiplos avaliadores também se aplica às organizações.


Se um colaborador que tem dez supervisores é considerado excelente por nove deles e fraco pelo restante, esta última avaliação pode ser descartada. Portanto, ao movimentar o colaborador pela organização para que obtenha diferentes avaliações, ou ao utilizar diversos avaliadores ( como no método da avaliação trezentos e sessenta graus ), é maior a probabilidade de se obter avaliações mais válidas e confiáveis.


Avaliar seletivamente


Os avaliadores só devem fazer julgamentos nas áreas em que tenham bom conhecimento. Quando isto acontece, a concordância dos julgamentos aumenta e o processo da avaliação se torna mais válido. Esta abordagem também reconhece que os diferentes níveis organizacionais oferecem orientações diversas para os avaliadores e os observam em diferentes contextos. De maneira geral, portanto, recomenda-se que os avaliadores estejam o mais próximo possível do avaliado, em termos de nível operacional. Quanto maior esta distância, menores as oportunidades de o avaliador observar o comportamento do avaliado e, portanto, maior a probabilidade de que erros sejam cometidos.


Treinar os avaliadores


Se não é possível encontrar bons avaliadores, a alternativa é criá-los. Há evidências substanciais de que os avaliadores treinados se tornam juízes mais eficazes.


Erros comuns, como efeitos de halo e leniência, foram minimizados ou eliminados em workshops nos quais os executivos praticaram a observação e o julgamento de comportamentos. Estes workshops geralmente duram de um a três dias, embora nem sempre seja necessário alocar muitas horas de treinamento. Na literatura, cita-se um caso em que os efeitos de halo e leniência foram reduzidos imediatamente após os avaliadores terem participado de sessões de apenas cinco minutos de treinamento explanatório. Mas os efeitos do treinamento parecem diminuir com o passar do tempo, Isto sugere a necessidade de atualizações regulares.


Oferecer aos colaboradores um processo legal


O conceito de processo legal pode ser aplicado na avaliação para aumentar a percepção de que os colaboradores estão sendo tratados com justiça. Três aspectos caracterizam os sistemas de processos legais:


1) As pessoas são informadas adequadamente sobre o que se espera delas;

2) Qualquer evidência de violação é divulgada de maneira justa, para que todos os envolvidos possam se manifestar; e

3) A decisão final é baseada nas evidências e livre de tendências.


Existem muitas indicações de que este sistema não costuma ser respeitado nas avaliações, pois os colaboradores recebem feedback insuficiente e eventual acerca de seu desempenho, o que eles dá pouca chance de contribuir para o processo de avaliação, além dos conhecidos vieses introduzidos nos julgamentos. Quando o processo legal faz parte do sistema de avaliação, os colaboradores manifestam reações positivas a ele, percebem os resultados da avaliação como mais precisos e mostram crescente intenção de permanecer na organização.


Oferecendo feedback do desempenho


Para muitos executivos, poucas atividades são tão desagradáveis quanto proporcionar feedback de desempenho aos colaboradores. Na realidade, a menos que sejam pressionados pela política e por controles organizacionais, a maioria prefere ignorar  esta responsabilidade.


Por que existe esta relutância? parece haver pelo menos três razões. A primeira é que os executivos se sentem desconfortáveis ao discutir um desempenho fraco diretamente com o colaborador. Como quase todo colaborador pode apresentar resistência à melhoria em algumas áreas, os executivos temem um confronto quando apresentam um feedback negativo. Isto parece se aplicar até mesmo a casos em que as pessoas apresentam um feedback negativo para um computador! Bill Gates conta que a Microsoft realizou um projeto em que pedia às pessoas que avaliassem suas experiências com um computador. "Quando o computador com o qual a pessoa havia trabalhado pedia a ela que avaliasse o desempenho dele, as respostas tendiam a ser positivas. Mas quando um segundo computador fazia a mesma pergunta, as pessoas se mostravam muito mais críticas em relação à máquina com o qual haviam trabalhado. A relutância em criticar o primeiro computador na cara dele, sugere que havia uma preocupação em não ferir seus sentimentos, mesmo sabendo tratar-se apenas de uma máquina. Segundo, muitos colaboradores se colocam na defensiva quando seus pontos fracos são apontados. Em vez aceitar o feedback como construtivo e fundamental para a melhoria do desempenho, eles desafiam a avaliação criticando o executivo ou colocando a culpa em outra pessoa. Uma pesquisa, realizada com cento e cinquenta e um gerentes da área na Filadélfia, revelou que noventa e oito por cento deles enfrentaram algum tipo de agressão depois de oferecer feedback negativo aos subordinados.


Por último, os colaboradores costumam superestimar o próprio desempenho. Estatisticamente falando, metade da força de trabalho é composta por pessoas com desempenhos abaixo da média. Mas as evidências sugerem que a maioria dos colaboradores se considera com um nível de desempenho em torno do septuagésimo-quinto percentil. Assim, mesmo diante de uma avaliação positiva, os colaboradores tendem a não considerá-la suficientemente boa.


A solução para este problema não é ignorar o feedback, mas treinar os executivos para que saibam conduzir sessões construtivas de avaliação. Uma avaliação eficaz - aquela em que o colaborador percebe o julgamento como justo, percebe a sinceridade do chefe e o clima como construtivo - pode resultar na elevação do moral do colaborador, com a indicação das áreas de seu desempenho que precisam ser melhoradas e com o colaborador determinado a corrigir suas deficiências. Além disto, a revisão de desempenho deve ser programada para ser mais uma atividade de aconselhamento do que de julgamento. Isto pode ser obtido quando se permite que a revisão evolua a partir da auto-avaliação do colaborador.


O que dizer da avaliação de desempenho de grupos?


Os conceitos de avaliação de desempenho foram desenvolvidos quase exclusivamente com foco em colaboradores individuais. Isto reflete a crença tradicional de que os indivíduos são as peças fundamentais na construção das organizações. Mas, cada vez mais as organizações estão se reestruturando em torno do trabalho em equipe. Como deve ser avaliado o desempenho nestas organizações? Oferece-se a seguir quatro sugestões para a elaboração de um sistema que apoie e aperfeiçoe o desenvolvimento das equipes.


1) Vincular os resultados da equipe às metas da organização. É importante encontrar medidas que se apliquem às metas importantes que a equipe deve atingir.


2) Começar com os clientes da equipe e o processo de trabalho que a equipe adora para satisfazer as necessidades destes clientes. O produto final recebido pelo cliente pode ser avaliado em termos da expectativa dele. As transações entre equipes podem ser avaliadas em termos de entrega e qualidade. Os passos do processo podem ser avaliados em termos de desperdício e ciclo de tempo.


3) Medir o desempenho tanto da equipe quanto do indivíduo. Definir os papeis de cada membro da equipe em termos das realizações que apoiem o processo de trabalho do grupo. Depois, avalie a contribuição de cada um e o desempenho geral da equipe. Lembrar que as habilidades individuais são necessárias para o sucesso da equipe, mas não suficientes para o bom desempenho do grupo.


4) Treine a equipe para criar suas próprias medidas. Fazer com que a equipe defina seus objetivos e as metas de cada membro assegura que todos compreendam seus papéis e ajuda o grupo a se desenvolver como uma unidade coesa.


Práticas  internacionais de recursos humanos: questões relacionadas


Muitas das políticas e das práticas de recursos humanos têm sido modificadas para refletir diferenças entre sociedades. para ilustrar este ponto, serão examinados sucintamente o problema da seleção de executivos para missões no exterior e a importância da avaliação de desempenho em diferentes culturas.


Seleção


Um estudo recente com trezentas grandes organizações em vinte e dois países demonstrou que as práticas de seleção diferem de uma nação para outra. Foram encontrados, contudo, alguns procedimentos comuns. Por exemplo, o uso das qualificações educacionais na triagem dos candidatos parece ser uma prática universal. No mais, cada país tende a enfatizar diferentes técnicas de seleção. As entrevistas estruturadas, por exemplo, são comuns em alguns em alguns países e simplesmente inexistem em outros. Segundo os autores do estudo, certas culturas parecem considerar este tipo de entrevista antiético em vista de crenças acerca de como uma interação interpessoal deve ser conduzida ou sobre até que ponto se deve confiar no julgamento do entrevistador.


Este estudo, ao lado de pesquisas mais recentes, revela que não há práticas de seleção universalmente aceitas. Por isto, as organizações globalizadas que tentaram padronizar seus métodos de seleção encontraram resistências nos diferentes países. As políticas e práticas de recursos humanos precisam ser adaptadas para refletir as normas culturais e os valores sociais, bem como as diferenças legais e econômicas entre as nações.


Avaliação de desempenho


Foram examinados previamente o papel que a avaliação de desempenho representa para a motivação e o comportamento. Deve-se tomar muito cuidado, contudo, ao fazer generalizações multiculturais. Por que? Porque muitas culturas não se preocupam especificamente com a avaliação de desempenho, ou o fazem de maneira distinta daquilo que acontece, por exemplo, nos EUA ou no Canadá.


A seguir, serão examinado quatro dimensões culturais: individualismo / coletivismo, relação pessoal com o ambiente, orientação temporal e foco de responsabilidade.


Culturas individualistas, como a dos EUA, enfatizam sistemas formais de avaliação de desempenho em detrimento dos sistemas informais. Elas defendem, por exemplo, o uso de avaliações escritas a intervalos regulares, cujos resultados são compartilhados com os colaboradores e servem de base para a determinação de recompensas. Por outro lado, as culturas coletivistas, dominantes na Ásia e em parte da América Latina, são caracterizadas por sistemas mais informais - que menosprezam o feedback escrito e desvinculam a alocação de recompensas das avaliações de desempenho. A Fujitsu, gigante japonesa de tecnologia, por exemplo, introduziu um sistema formal de avaliação com base no desempenho em meados da década de noventa. Recentemente, contudo, a organização abandonou o sistema reconhecido que ele não deu certo porque não se ajustou à cultura organizacional japonesa ( coletivista ).


As empresas norte-americanas e canadenses delegam aos indivíduos a responsabilidade por suas ações porque as pessoas destes países acreditam que podem dominar seu ambiente. No Oriente Médio, por outro lado, a avaliações de desempenho não são amplamente utilizadas, já que naqueles países os executivos acreditam que as pessoas são dominadas pelo ambiente.


Alguns países, como os EUA, possuem uma orientação de curto prazo. As avaliações de desempenho tendem a ser frequentes neste tipo de cultura - são realizadas, pelo menos, uma vez ao ano. No Japão, onde se pensa em prazos mais longos, as avaliações de desempenho podem ocorrer apenas uma vez a cada cinco ou a cada dez anos.


Israel valoriza muito mais as atividades de grupo do que os EUA ou o Canadá. Assim, enquanto os executivos norte-americanos enfatizam o indivíduo na avaliação de desempenho, seus colegas israelenses tendem a enfatizar o indivíduo na avaliação de desempenho, seus colegas israaelenses tendem a enfatizar as contribuições e o desempenho do grupo.


Administrando a diversidade nas organizações


David Morris e seu pai, Saul, fundaram a Habitat International em mil novecentos e oitenta e um. Sediada em Rossville, na Geórgia, a organização fabrica grama sintética em forma de carpete, para uso em áreas internas e externas. Desde o início, os Morris contrataram refugiados do Camboja, da Bósnia e do Laos, muitos dos quais nem falavam inglês. Quando um assistente social sugeriu, em mil novecentos e oitenta e quatro, que eles contratassem pessoas com deficiência mental, Saul vacilou. Conratar um portador de síndrome de Down, por exemplo, parecia muito arriscado. Mas David tinha outra opinião. Pediu ao pai que considerasse a ideia.


O primeiro grupo de oito portadores de deficiência mental chegou acompanhado de um responsável do serviço social e foi imediatamente trabalhar na seção de embalagens. Duas semanas mais tarde, conta Saul, alguns colaboradores goram procurá-lo para perguntar por que a empresa não encontrava mais pessoas como aquelas, que faziam seu trabalho com cuidado, orgulho e sempre sorrindo.


Atualmente, setenta e cinco por cento dos colaboradores da Habitar são portadores de algum tipo de deficiência. Pessoas que sofrem de esquizofrenia, por exemplo, trabalham com empilhadeiras, al lado de colaboradores portadores de autismo ou paralisia cerebral. Apesar disto, a equipe dos Morris faz bem tanto para seus colegas como para si próprios. Os portadores de deficiência ganharam auto-estima e se tornaram auto-suficientes o bastante para não depender da ajuda governamental, e os Morris aproveitaram os benefícios de uma força de trabalho dedicada e esforçada. "Temos praticamente zero de absenteísmo e uma rotatividade muito baixa", diz David.


O caso da Habitat International ilustra o papel que a seleção de colaboradores pode ter para amentar a diversidade. Mas os programas eficazes de diversidade vão muito além da simples contratação de ma força de trabalho diversificada. Eles incluem a administração de conflitos no ambiente de trabalho e daqueles próprios da vida e treinamento para a diversidade. Estas parecem ser características comuns às principais organizações que construíram uma reputação de líder da diversidade - organizações como Avon, McDonald's, Fannie Mae, PepsiCo, Xerox,. Safeway e Hilton Hotels.


Conflito entre a vida profissional e a vida pessoal


Nesta seção, será elaborado melhor o tema do equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal e as forças que vêm diluindo as fronteiras entre ambas - especialmente no que se refere ao que as organizações podem fazer para ajudar a resolver este conflitos.


O conflitos entre a vida profissional e pessoal começaram a chamar a atenção dos executivos na década de oitenta, principalmente por causa do aumento do número de mulheres com filhos que entravam no mercado de trabalho. Em resposta, a maioria das grandes organizações empreendeu ações no local de trabalho, acampamentos, horários flexíveis, emprego compartilhado, abonos para comparecimento na escola dos filhos, telecomputação e empregos de meio período. Mas as organizações logo perceberam que estes conflitos não são exclusivos das mulheres com filhos. Os colaboradores e as colaboradoras sem filhos também têm problemas. A carga de trabalho excessiva e a grande demanda por viagens a trabalho, por exemplo, crescentemente dificultam a ajuste entre as demandas profissionais e as responsabilidades pessoais para muitos colaboradores. Um estudo da Universidade de Harvard, por exemplo, revelou que oitenta e dois por cento dos homens com idade entre e vinte e trinta e nove anos consideravam os programas amigáveis para as famílias o critério mais importante na escolha de um emprego. Mesmo aqueles colaboradores que parecem dar conta de tudo estão começando a sentir culpa ou estresse.


O ambiente de trabalho está se modificando progressivamente para acomodar as diferentes necessidades de uma força de trabalho diversificada. Isto inclui a oferta de vários tipos de esquemas de horário de trabalho e de benefícios que lhes deem maior flexibilidade e mais oportunidade de equilibrar a vida profissional e a pessoal. Os funcionários dos escritórios centrais da rede varejista Eddie Bauer, por exemplo, têm horários flexíveis, e um amplo cardápio de serviços à sua disposição, como entrega e recolhimento de lavanderia, caixas eletrônicos, uma academia de ginástica com personal trainers, vacinação contra gripe, reuniões dos vigilantes do peso e seminários sobre finanças.


Pesquisas recentes sobre o assuntos trouxeram novas informações sobre o que funciona e quando. Por exemplo, as evidências indicam que as pressões de tempo não são o problema principal. O que importa é a interferência psicológicas da vida profissional na vida familiar, e vice-versa. As pessoas se preocupam com a família durante o trabalho e pensam no trabalho quando estão em casa. Assim, o pai pode estar fisicamente presente à mesa do jantar, mas sua mente está longe. Isto sugere que as organizações não devem se preocupar tanto com a questão dos horários de trabalho, mas sim em ajudar seus colaboradores a segmentar melhor suas vidas. manter cargas de trabalho razoáveis, diminuir o número de viagens de negócios e oferecer creche de qualidade na organização são algumas das práticas que podem auxiliar. Além disto, descobriu-se que as pessoas diferem em suas preferências quanto às opções de benefícios, o que não é surpreendente. Alguns preferem iniciativas da empresa que separem melhor trabalho de suas vidas pessoais. Outras, que se facilite esta integração. Por exemplo, os horários flexíveis atendem ao primeiro grupo, pois o colaborador pode escolher o horário menos conflitante com seus afazeres pessoais. Por outro lado, a creche ajuda na integração por diluir as barreiras entre o trabalho e as responsabilidades familiares. Os adeptos da segmentação preferem iniciativas como horários flexíveis, compartilhamento de tarefas e trabalho em período parcial. Aqueles que preferem a integração respondem mais positivamente a iniciativa como creches, academias de ginásticaa e atividades de lazer como os familiares.


Treinamento para a diversidade


O ponto central da maioria dos programas para a diversidade é o treinamento. Por exemplo, uma pesquisa recente revelou que, entre as empresas que adotam qualquer iniciativa deste tipo, noventa e três por cento utilizam o treinamento como parte do programa. Os programas de treinamento para a diversidade são geralmente voltados para o aumento da consciência e para o exame dos estereótipos. Os participantes aprendem a valorizar as diferenças individuais, aumentam sua compreensão multicultural e confrontam esterótipos. Na atual economia globalizada, e após os ataques terroristas de onze de setembro, o treinamento para a diversidade é fundamental para incrementar a cooperação entre equipes multifuncionais, facilitar o aprendizado dos grupos e reduzir atritos culturais.


Um programa típico dura entre meio dia até três dias e inclui exercícios de dramatização, palestras, discussões e experiências em grupos. Um exercício de treinamento na Hartford Insurance que buscava aumentar a sensibilidade para questão do envelhecimento, por exemplo, colocou quatro perguntas para os participantes:


1) Se você não soubesse a sua idade, quanto anos acha que teria? Em outras palavras, qual a idade que você sente ter?


2) Quanto eu tinha dezoito anos de idade, achava que a meia-idade começava aos...................................


3) Hoje, acredito que a meia-idade começa aos..........................................................................................


4) Qual seria sua primeira reação se alguém se referisse a você como um funcionário mais velho?


As respostas foram estão utilizadas para a análise dos estereótipos relacionados ao envelhecimento. Em outro programa que visava a melhorar a consciência em relação ao poder dos estereótipos, cada participante devei fazer uma redação anônima, detalhando todos os estereótipos que eles relacionavam a grupos - mulheres, cristão renascidos, negros, homossexuais, latinos ou homens. Pedia-se também aos participantes que explicassem as causas dos problemas surgidos na convivências com determinados grupos no passado. Com base nas respostas, foram convidados palestrantes para falar sobre cada um destes estereótipos. Em seguida, foi aberta uma ampla discussão sobre o tema.


Referência


Robbins, Stephen P., 1943 - Comportamento organizacional ; tradução técnica Reynaldo Marcondes - 11ª edição - São Paulo : Pearson Prentice Hall, 2005. ( pp. 397 - 420 ) .


Mais em:


https://administradores.com.br/artigos/gest%C3%A3o-de-compet%C3%AAncias-pol%C3%ADticas-e-pr%C3%A1ticas-de-recursos-humanos .

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Gestão do conhecimento: estratégias e técnicas

Resumo


Dado que a gestão do conhecimento ( GC ) tem se tornado uma das tendências na administração que mais rapidamente cresceu na década, diversas estratégias e técnicas foram desenvolvidas para fomentar o processo. Não há uma distinção rígida entre estratégias e técnicas e GC e condições que a favorecem. Os blocos de construção ( tijolos ) de uma organização de aprendizagem também estão intimamente relacionados às técnicas e estratégias que serão descritas a seguir.


Introdução


Empregar as pessoas certas


Se a intenção é atingir uma importante meta organizacional, a ideia é empregar as pessoas certas. a contratação de pessoas com habilidades para aprender e ensinar faz uma diferença substancial na eficácia da GC. O consultor de recursos humanos, Tom O. Davenport explica: "Poucas empresas incluíram em seus modelos de competência quão bem as pessoas aprendem e transmitem o conhecimento informalmente dentro da organização. Contar com pessoas ávidas por aprender e pessoas hábeis em transferir o conhecimento, tornará a organização muito mais viva.".


As pessoas com o perfil certo para a GC são provavelmente aquelas que no passado demonstraram inteligência, acúmulo de conhecimento, curiosidade intelectual. Entrevistas e referências são úteis para a identificação destas pessoas. Duas importantes questões de entrevistas seriam "a descrição de como a pessoa tem compartilhado conhecimento no trabalho e na escola até o presente momento" e "que novo desenvolvimento na área de atuação a pessoa aprendeu recentemente?". A realização de testes de habilidade cognitiva e abertura a novas experiências também seria apropriada.


Criar conhecimento


A criação do conhecimento é um primeiro passo importante para a GC. A estratégia é facilmente formulada, mas não tão fácil de implementar. Em primeiro é necessária inteligência para criar o conhecimento, e também das condições que favorecem a criatividade e a inovação.


O conhecimento é a matéria-prima que permite às pessoas inovar produtos, serviços, processos e métodos de gerenciamento. O modelo de aprendizagem organizacional fornece uma explicação parcial sobre o modo como o conhecimento é criado. Para entender a necessidade de criação de conhecimento novo, é útil enxergar cada produto, serviço e processo de trabalho como um pacote de conhecimento. Por exemplo, o Chrysler PT Cruiser é o resultado da inteligência envolvida pela habilidade em ajustar um projeto de sessenta e três anos para atender ao gosto moderno pela aparência antiga, realizar o trabalho de engenharia e produção apropriado, divulgar e distribuir o produto aos clientes.


A ideia da criação do conhecimento não é nova; por muito tempo ela tem sido a base de empresas bem-sucedidas. Entretanto, a AC ressalta o valor da existência de um grande número de pessoas criando conhecimento.


Gestão competitiva do conhecimento


Uma abordagem agressiva à GC se faz por meio do desenvolvimento de mecanismos para capacitar os trabalhadores a buscar conhecimento e habilidade fora da organização. Tal abordagem é tradicionalmente chamada inteligência competitiva. Com a internet e os bancos de dados desenvolvidos por organizações agora também acessíveis ao público, os funcionários de uma organização podem encontrar informações úteis sobre os concorrentes - informações estas que são de conhecimento geral. No entanto, se esta abordagem for levada muito adiante, ela pode chegar a constituir apropriação indébita de segredos comerciais.


Michael Dell, da Dell Computer, fez busca pela internet sobre as tendências do parte de sua rotina de trabalho. Ele acredita que uma quantidade considerável de informações úteis sobre tendências do setor está disponível em vários sites. Uma pessoa precisa ter um alto nível de habilidade para pesquisar na internet - precisa saber onde procurar - para gerar informações úteis.


Codificação versus personalização do conhecimento


Para melhor entender as diferentes abordagens à GC, uma equipe de pesquisadores estudou práticas de GC em empresas de consultoria de administração, administradoras de planos de saúde e fabricantes de computadores. Os pesquisadores classificaram as diversas atividades de GC em duas estratégias diferentes. Uma importante descoberta revelou que empresas que lidam com produtos e serviços padronizados adotam uma abordagem diferente das companhias que fornecem soluções altamente personalizadas.


Nas organizações que fabricam e vendem produtos relativamente padronizados que atendem às necessidades de muitos clientes, o conhecimento é cuidadosamente codificado e armazenado em bancos de dados. Deste modo, a informação pode ser acessada prontamente e utilizada várias vezes por qualquer pessoa da organização. Os autores do estudo denominam este processo de estratégia de codificação.


Nas organizações que fornecem soluções altamente personalizadas para clientes únicos ou para problemas de clientes, o conhecimento é compartilhado principalmente mediante contatos interpessoais. ( a mesma estratégia pode ser descrita como aprendizagem informal ). O principal propósito dos computadores, incluindo e-mails, é ajudar as pessoas a se comunicar. Esta estratégia é denominada estratégia de personalização.


Os pesquisadores observaram que a escolha, por parte de uma empresa de GC não é arbitrária; ela deve ser orientada pela estratégia competitiva de padronização versus personalização. Enfatizar a abordagem errada ou tentar usar ambas simultaneamente pode interferir na produtividade e na lucratividade. Para ajudar a identificar qual a melhor abordagem a ser adotada, a alta gerência deveria encontrar respostas precisas para as seguintes questões:


 1) A organização oferece produtos padronizados ou personalizados? ( Se os produtos são padronizados, é melhor codificar o conhecimento. Para produtos personalizados, é melhor usar modelo de personalização, porque o conhecimento codificado será geralmente de pouca valia. ).


2) A organização tem um produto ou um produto inovativo? ( Melhor será usar conhecimento codificado para produtos maduros e personalizados para produtos inovadores. ).


3) As pessoas que trabalham na organização se apoiam mais no conhecimento explícito ou tácito para resolver os problemas? ( O conhecimento explícito aplica-se melhor a uma estratégia codificada. Para o conhecimento tácito, uma abordagem pessoa a pessoa produz melhores resultados. ).


Estas orientações são, provavelmente, menos precisas do que pensam os autores do estudo. Um problema está no fato de que os produtos, algumas vezes, combinam a padronização e a personalização, como, por exemplo, calçados fabricados para tamanhos incomuns. Além disto, o conhecimento nem sempre é prontamente passível de ser classificado em explícito ( bem estruturado ) versus tácito ( intuitivo ).


Indicação de um Chief Knowledge Officer ( Oficial de "apropriação indébita" de conhecimento )


Para melhor promover a GC, aproximadamente cem grandes organizações criaram um cargo denominado chief knowledge officer, chief learnig officer ( oficial de "apropriação indébita" de aprendizagem ), chief information officer ( oficial de "apropriação indébita" de informação ). Ao contrário do que se acredita, esta pessoa não é o responsável por treinamento e desenvolvimento. Um CKO é responsável por reunir informações sistematicamente e ligar as pessoas que precisam da informação com aquelas que a têm. As atividades específicas do cargo ou papel incluem:


1) organizar conferências nas quais os trabalhadores compartilham informações;

2) assimilar bancos de dados do conhecimento da empresa;

3) ensinar como as pessoas aprenderem em um nível mais profundo;

4) fazer com que as pessoas reflitam sobre suas experiências e tirem proveito de seus erros;

5) "vender" aos funcionários a ideia de que a capacidade intelectual é a verdadeira fonte da vantagem competitiva da organização.


Como o conhecimento é o principal produto das organizações que prestam serviços profissionais, tais organizações foram as primeiras a criar o cargo de CKO. John Peetz, CKO da Ernest & Young, descreve sua função: "Para nós, a GC é algo crítico. É um dos nossos quatro processos essenciais - vender trabalho, fazer trabalho, gerenciar pessoas e fazer a GC.".


Eliminação do hiato entre conhecer e fazer


Jeffrey Pfeffer e Robert I. Sutton investigaram as razões pelas quais as empresas não realizam mais, já que têm tanto conhecimento e especialização. ( Esta pergunta e uma versão da Stanford University Business School - Faculdade de Administração da Universidade de Stanford - da antiga questão "se você é tão inteligente, por que não é rico?" ).


Pfeffer e Sutton acreditam que as organizações caíram no hiato conhecer-fazer porque a realização de alguma coisa requer o trabalho árduo de fazer com que algo aconteça. Fazer a GC não é suficiente; o conhecimento deve ser convertido em ação. Com frequência, isto significa a prática de ações decisivas que resultam na continuidade dos negócios, como, por exemplo, uma companhia aérea com um alto percentual de voos pontuais que oferece comissões para representantes de vendas de lojas varejistas.


Métodos para compartilhamento de informações


Uma importante meta da organização que favorece a aprendizagem e a GC é fazer com que os membros compartilhem informações relevantes. Muitas das estratégias e técnicas já descritas, contribuem direta ou indiretamente com o ato de compartilhar informações. Além disto, o quadro caso "comportamento organizacional em ação" ( que será apresentado ainda neste texto ) descreve como uma pequena empresa desenvolveu um método eficaz de compartilhamento de informações. A seguir, serão descritos resumidamente cinco métodos focados para compartilhamento de informações:


1) Páginas amarelas internas. A ideia básica das páginas amarelas da empresa é compilar uma lista de habilidades, talentos e conhecimento especial dos empregado por toda a empresa. Para que sejam úteis, as páginas amarelas devem incluir mais do que informações básicas e experiência de trabalho. A lista deve indicar o conhecimento especializado e o grau de especialização das pessoas nela incluídas. Quando os empregado enfrentarem um problema cuja solução requer uma habilidade específica, eles podem consultar a lista e encontrar a pessoa para ajudá-los.


2) Sistemas de comunicação intranet. Um número crescente de organizações usa intranets e fóruns on-line para divulgar e compartilhar conhecimento. Os Laboratórios Buckman têm um sistema de compartilhamento de conhecimento conhecido como K'Netics e que é utilizado por mil e duzentos funcionários em oitenta países, incluindo o CEO Bob Buckman. empregados que trabalham em casa ou no escritório de um cliente podem receber instantaneamente informações completas sobre as mais diversas áreas, desde práticas de recursos humanos até os métodos para aperfeiçoar um novo processo químico.


3) Explicações pessoais dos fatores de sucesso. Um avançado método de compartilhamento de informações requer que os membros-chave da organização ensinem aos outros o que eles sabem, com explicações dos fatores de sucesso. Noel Tichy refere-se a estas histórias como pontos de vista que podem ser ensinados porque eles ajudam os líderes a se tornar professores. O ponto de vista que pode ser ensinado é uma explicação escrita sobre o que a pessoa conhece e acredita ser verdade no tocante aos elementos necessários para obter sucesso em seu próprio negócio, bem como nos negócios em geral. Com aproximadamente duas páginas, o documento foca fatores fundamentais de sucesso tais como "o que seria necessário para vencer a competição?". Tichy afirma que este método de compartilhamento de informações é utilizado em centenas de organizações.


4) Incentivar o diálogo entre os membros da organização. Para divulgar a importância do compartilhamento de informações, os líderes da organização deveriam manter conversações sobre a relevância do capital intelectual e do desenvolvimento de competências essenciais. Ao mesmo tempo, os trabalhadores por toda a organização devem ser encorajados a compartilhar sugestões, parcelas de conhecimento e histórias de sucesso sobre soluções de problemas. Este modo de compartilhamento de informações podem ocorrer face a face; contudo, a troca de informações via e-mail também desempenha um papel vital.


5) Compartilhar instalações físicas e aprendizagem informal. Compartilhar as instalações físicas do local de trabalho é um importante método usado no incentivo ao diálogo. Uma considerável troca de informações tende a ocorrer no espaço reservado para o café ou no centro de recursos de informação da organização. Ao mesmo tempo, ocorre a aprendizagem informal, que é praticamente um sinônimo do compartilhamento de informações.


Implicações para a prática gerencial


1) O aspecto mais importante e prático para a organização de aprendizagem e da GC é a troca de informações úteis entre os trabalhadores. Em sua função como gerente, este deveria, portanto, fazer um esforço sistemático para garantir que a informação seja compartilhada em sua unidade organizacional. O estabelecimento de fases formais ( por exemplo, intranet ) e métodos informais ( tais como simplesmente encorajar os funcionários a trocar boas ideias ), para realizar o compartilhamento de informações é uma sugestão.


2) Vários teóricos afirmam que a verdadeira vantagem competitiva de uma organização deriva de seu capital intelectual. Se esta observação é válida, uma das mais importantes prioridades de uma empresa é recrutar e manter trabalhadores inteligentes e esclarecidos. Ainda durante um downsizing, deve-se realizar o máximo esforço para manter na empresa os melhores pensadores e as pessoas com maior conhecimento.


Estudo de casos ( 2 )


1) Comportamento organizacional em ação. Funcionários de estação de esqui compartilham conhecimento


Swan Moutain Ski Center enfrentou problemas com seu sistema de emissão de bilhetes.


O equipamento usado para o sistema era velho e ultrapassado, o que fazia com que os clientes tivessem de esperar em fila por um longo tempo para obter os seus bilhetes. Outro problema foi que o mesmo tipo de fotografia e laminado era usado todos os anos. Como consequência, um número cada vez maior de pessoas começou a falsificar os bilhetes. A gerência da organização sabia que era necessária a implementação de mudanças. A organização precisava de um novo sistema de emissão que fosse mais rápido e que dessem uma nova imagem aos bilhetes.


A gerência da organização decidiu instalar um sistema computadorizado. O sistema de banco de dados Access foi, então utilizado para captar informações, armazenar e transmitir todas as informações necessárias. A empresa adquiriu uma câmera digital para tirar a fotos a serem inseridas nos bilhetes. a gerência acreditou que, com a utilização de tecnologia de primeira linha, havia resolvido os problemas com o sistema.


Este otimismo não durou muito, entretanto. Uma nova série de problemas apareceu. A maioria dos funcionários que trabalhava na empresa havia muitos anos não sabia como operar o equipamento ou possuía limitadas habilidades e lidar com computadores. Alguns empregados ficaram com tanto medo de trabalhar com um novo sistema de computador que consideraram se desligar da organização. A organização precisava encontrar um modo barato e relativamente rápido de treinar os empregados para usar o novo sistema.


Elizabeth Simon, a gerente do escritório, decidiu resolver o problema do treinamento em etapas. Primeiramente, ela tranquilizou os dez funcionários do escritório dizendo que não se preocupassem com o uso do novo equipamento. Ela garantiu aos funcionários que todos seriam treinados a operar o sistema, de acordo com seus próprios ritmos. Depois, Elizabeth entrevistou os funcionários a respeito de seus conhecimentos sobre os computadores. Descobriu que três pessoas tinham conhecimento e experiência suficientes. Elas foram as primeiras a serem treinadas a utilizar o Access e a câmera digital. O treinamento começou por estes três funcionários porque Elizabeth sabia que eles seriam de grande ajuda para os outros que necessitavam de assistência para operar o novo sistema. O treinamento continuou da mesma forma com mais dois grupos de funcionários. Entretanto, quando necessário, ela introduzia noções básicas àqueles que não tinham conhecimento de como operar os computadores.


Quando todos os empregados receberam o treinamento inicial, eles voltaram ao escritório para um treinamento simulado no trabalho. Os funcionários revezaram-se na operação do sistema e da câmera e depois simulavam ser clientes. Os três empregados com mais conhecimento ajudaram os outros. Esta simulação deu aos funcionários da organização a oportunidade de pôr em prática o conhecimento adquirido sem que fossem muito pressionados.


Este método de treinar empregados e dar-lhes a oportunidade de compartilhar conhecimento provou ser eficaz. Nenhum dos trabalhadores se desligou da organização e, atualmente, todos trabalham confortavelmente com o novo sistema emitindo bilhetes. O caso foi pesquisado por Theresa Whitman, do Rochester Institute of Technology ( RIT ) em mil novecentos e noventa e oito.         


2) A relutância em compartilhar informações


A empresa Flagstaff Marketing Group ( FMG ) é especializada em oferecer assistência de marketing a organizações comerciais. A maior parte de seus clientes é formada por organizações  de pequeno e médio porte que não têm grandes equipes internas de marketing. A organização não frequentemente auxilia o cliente a divulgar um produto prestando assistência em questões ligadas à procura de consumidores em potencial e desenvolvimento de slogans de marketing. Um de seus clientes, uma organização fabricante de patinetes sem motor, consultou o grupo sobre a abertura de um novo mercado. A organização ajudou a divulgar o produto entre os moradores da cidade como um veículo para ir ao trabalho. O tema da campanha foi "Deslize para o sucesso". As vendas do produto quadruplicaram.


O grupo também tem grandes organizações entre seus clientes. Para estes clientes, a organização oferece um serviço especializado que o cliente pode não ter. Por exemplo, o grupo desenvolve logos e nomes para firmas, ajudando-as a ter uma identidade distinta, como no caso de encontrar um novo nome para uma empresa após uma fusão ou cisão. Embora não tenha sido criado pela organização, um exemplo é o nome "Lucent Technologies" para a antiga divisão de produção de equipamentos da AT&T.


Peter Flagstaff, o fundador da empresa, tem-se preocupado ultimamente com o fato de que sua firma não desenvolve as ideias eficientemente. Ele disse a Lindsay Gibson, a vice-presidente executiva:


- Eu continuo a ouvir repetidamente as mesmas discussões a respeito da solução de um problema de um determinado cliente. Os executivos responsáveis pelas contas continuam a buscar alternativas já criadas por outros. As pessoas não capitalizam o bom trabalho de solução de problemas realizado no passado. Passamos pelo mesmo processo angustiante de lidar com problemas similares.


Lindsay perguntou:


- Peter, você está sugerindo que deveríamos oferecer soluções prontas aos clientes para economizar tempo?


- Não, de modo algum. - explicou Peter.  - Poderíamos, pelo menos, economizar um pouco de tempo e oferecer aos clientes tipos de assistência semelhantes aos que oferecemos a outros clientes no passado. darei um bom exemplo. Há pouco tempo, Regie Whitson atendeu uma firma fabricante de roupas  para animais de estimação. O cliente queria expandir o mercado incluindo itens como capas de chuva para cães, sapatos para cães usarem em dias frios e uma linha de suéteres de luxo para cães usarem em ocasiões especiais. Reggie passou uma semana pesquisando sobre roupas para cães antes de apresentar alguma sugestão para o cliente.


Se Reggie tivesse trocado ideias com outros colegas, poderia ter obtido algumas sugestões em um período de tempo bem menor. Além disto, se ele tivesse gastado menos tempo, o cliente não ficaria tão surpreso com o valor cobrado pelo serviço.


Perplexa, Lindsay disse:


- Mas como Reggie poderia saber quem lidara com um problema semelhante no passado?


Peter aproveitou a chance:


- Você pontou o problema. Nós não temos feito um bom trabalho em sistematicamente concentrar todas estas excelentes informações em nosso cérebro. Não estamos apenas reinventando a roda. Estamos reinventando a ideia de que uma roda seria um objeto útil. Proponho que encontremos um modo de compartilhar conhecimento que trará altos dividendos para a organização. Nos últimos anos, as mais importante firmas de consultoria desenvolveram sistemas muito eficientes para compartilhar conhecimento e fazer a GC.


Não estou dizendo que devemos contratar alguém para ser nosso CKO, ou que devamos investir quinhentos mil dólares em um software sofisticado. Só quero que compartilhemos as ideias de maneira mais eficiente.


- Tenho uma ideia! - disse Lindsay - Vamos marcar um jantar de combinação e um grupo de foco para a equipe. Discutiremos a razão pela qual não somos mais eficientes em trocar informações.


Entre os comentários apresentados no jantar / grupo de foco, estavam os seguintes:


Garry:


- Eu gostaria de ter mais oportunidades de compartilhar minhas experiências com meus colegas. Entretanto, estou preocupado com o bem-estar da organização. Suponham que eu apresente algumas de minhas melhores ideias a um colega e ele se desligue da organização. Minhas boas ideias serão levadas de imediato a um concorrente.


Brenda:


- Diferentemente de Garry, eu não tenho a menor hesitação em compartilhar minhas ideias. O problema é o tempo despendido neste processo. Em certa ocasião, fomos encorajados a escrever um relatório detalhando o modo como resolveríamos problemas pouco comuns. Não foi fácil realizar a tarefa. Tivemos de seguir uma formatação complicada. Talvez devêssemos utilizar um método mais rápido de registrar as boas ideias.


Sharon:


- Não sou contra compartilhar ideias, mas fico um pouco preocupada. Pedir ideias a outras pessoas sugere que eu não sou muito criativa. Tomemos como exemplo a conta do fabricante de roupas para cães. Se eu tivesse pedido opiniões de outras pessoas, pareceria que eu não sou capaz de ter boas ideias de ter boas ideias para divulgar roupas para cães.


Os membros do grupo riram.


Jason:


- Já que estamos sendo totalmente honestos, deixe-me atacar o cerne da questão. Somos pessoas criativas. Nossas carreiras dependem de apresentarmos boas ideias. Depois que você compartilhou uma ideia com um colega, ela se torna de conhecimento público. Ela perde a originalidade. Portanto, se usar aquela ideia novamente, você não será mais criativo, porque outros profissionais também a estão usando.


Anne:


- Jason tem razão. Trabalhar em grupo é bom, mas você ainda tem de procurar pelo número um. é claro que eu tenho sentimento de coleguismo e simpatia pela gerência executiva e pelos outros profissionais. Porém, continuo sendo avaliada pela organização quanto á minha originalidade.


Peter dirigiu-se ao grupo:


- Lindsay e eu agradecemos por terem sido tão sinceros. eu consigo ter alguma esperança no que diz respeito a compartilhar conhecimento em nossa organização. Mas isto é apenas o começo de um diálogo prolongado. Ainda temos um longo caminho a percorrer para bem administrar o conhecimento dentro da organização.


Referência:


Dubrin, Andrew J. Fundamentos de comportamento organizacional. 2a. edição. São Paulo: Thompson, 2003 ( pp. 397-409 ).


Mais em:


https://administradores.com.br/artigos/gest%C3%A3o-do-conhecimento-estrat%C3%A9gias-e-t%C3%A9cnicas .

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Aprendizagem organizacional: o sucesso das organizações que aprendem

Resumo


Todos aprendem, desde muito cedo, a desmembrar os problemas, a fragmentar o mundo. Aparentemente, isto torna tarefas e assuntos complexos mais administráveis, mas, em troca, paga-se um preço oculto relativamente alto. Não se consegue mais perceber as consequências das ações; perde-se a noção intrínseca de conexão com o todo. Quando se quer divisar o quadro geral, tenta-se montar os fragmentos na mente, listar e organizar todas as peças. Mas como diz o físico David Bohm, a tarefa é inglória - é como tentar montar os fragmentos de um espelho quebrado para enxergar um reflexo verdadeiro. Depois de algum tempo, acaba-se desistindo de ver o todo.


Introdução


As ferramentas e ideias apresentadas neste texto servem para acabar com a ilusão de que o mundo é feito de forças separadas, sem relação entre si. Quando se desiste desta ilusão, pode-se construir as organizações que aprendem, organizações nas quais as pessoas expandem continuamente sua capacidade de criar os resultados que realmente desejam, onde se estimulam padrões de pensamento novos e abrangentes, a aspiração coletiva ganha liberdade e onde as pessoas aprendem continuamente a aprender juntas.


Como publicou recentemente a revista Fortune:


- Esqueça suas antigas ideias sobre liderança. A empresa mais bem-sucedida na década de noventa será a organização que aprende.


- A capacidade de aprender mais rápido do que seus concorrentes - disse Arie de Geus, ex-vice presidente de planejamento da Royal Dutch / Shell,  - pode ser a única vantagem competitiva sustentável.


À medida que o mundo torna-se mais interligado e os negócios mais complexos e dinâmicos, o trabalho precisa ligar-se em profundidade à aprendizagem. Não basta mais ter uma única pessoa aprendendo pela empresa, um Ford, um Sloan ou um Watson. Simplesmente não é mais possível encontrar soluções na alta gerência e fazer com que todos os outros sigam as ordens do grande estrategista. As organizações que realmente terão sucesso no futuro serão aquelas que descobrirem como cultivar nas pessoas o comprometimento e a capacidade de aprender em todos os níveis da organização.


As organizações que aprendem são possíveis porque, no fundo, todos são aprendizes. Não é preciso ensinar uma criança a aprender. Na verdade, não é preciso ensinar algo à crianças. Elas são intrinsecamente curiosas, excelentes aprendizes, que aprendem a andar, falar e viver por conta própria. As organizações que aprendem são possíveis não só porque aprender faz parte da natureza humana, mas também porque o homem adora aprender. A maioria, em uma ou outra ocasião, já participou de uma excelente equipe, um grupo de pessoas que funcionavam juntas de uma forma extraordinária - que confiavam umas nas outras, que complementavam seus pontos fortes e compensavam suas limitações que tinham um objetivo em comum maior do que os objetivos individuais e que geravam resultados extraordinários. Peter M. Senge chegou a dizer que conheceu várias pessoas que experimentaram este tipo de trabalho em equipe - nos desportos, no teatro ou nos negócios. Muitas chegaram a dizer que passaram grande parte de suas vidas tentando reviver esta experiência. Elas teriam participado de uma organização que aprende. A equipe que se tornou excelente não começou excelente - aprendeu a produzir resultados extraordinários.


Poder-se-ia argumentar que a comunidade de negócios global está, como um todo, aprendendo a aprender em conjunto, tornando-se uma comunidade que aprende. Se antes muitos setores eram dominados por um único e incontestável líder - uma IBM, uma Kodak, uma Procter & Gamble, uma Xeros  - hoje existem, em todos os setores, principalmente no industrial, dezenas de excelentes companhias. O exemplo dos japoneses impulsiona as empresas norte-americanas e europeias; as coreanas e europeias, por sua vez, impulsionam os japoneses. Ocorrem melhorias radicais na Itália, na Austrália, e em Cingapura - que rapidamente passam a influenciar o mundo inteiro.


Existe também outro movimento, mais profundo em alguns aspectos, rumo à organização que aprende, que faz parte da evolução da sociedade industrial. A afluência material da maioria alterou gradualmente a forma pela qual as pessoas encaram o trabalho - que evoluiu do que Daniel Yankelovich chamou de visão instrumental do trabalho, onde este era apenas um meio para o fim, para uma visão mais sagrada, onde as pessoas buscam os benefícios intrínsecos do trabalho.


- Nossos avós trabalhavam seis dias por semana para ganhar o que hoje a maioria de nós recebe em uma única tarde - diz Bill O'Brien, diretor-presidente da Hanover Insurance - A agitação na administração de organizações continuará até construirmos organizações que sejam mais coerentes com as mais elevadas aspirações humanas, as que estão além de comida, abrigo e posses - complementa.


E mais: muitas das pessoas que cultivam estes valores encontram-se atualmente em cargos de liderança. Senge diz ter chegado a conhecer um número cada vez maior de líderes organizacionais que, embora ainda sejam minoria, sentem-se parte de uma profunda evolução na natureza do trabalho como instituição social.


- Por que não podemos realizar um bom serviço no trabalho? - perguntou recentemente Edward Simon, presidente da Herman Miller - a meu ver, a organização é hoje a única instituição com chances de atenuar profundamente as injustiças existentes no mundo. Antes, porém, teremos de derrubar as barreiras que nos impedem de aprender e de nos direcionarmos de acordo com nossas visões - pondera.


Talvez o motivo mais notável para a construção de organizações que aprendem é o fato de só agora estar começando a haver um entendimento das aptidões que tais organizações devem possuir. Durante muito tempo, os esforços para criá-las resumiam-se a tatear no escuro até descobrir as habilidades, as áreas de conhecimento e os caminhos para o seu desenvolvimento. O que distinguirá fundamentalmente as organizações que aprendem das organizações controladoras e autoritárias tradicionais será o domínio de determinadas disciplinas básicas. Por isto, as disciplinas na organizações que aprende são vitais.


Disciplinas da organização que aprende


Em uma manhã fria e clara de dezembro de mil novecentos e três, em Kitty Hawk, Carolina do Norte ( Estados Unidos da América - EUA ), o frágil avião de Wilbur e Orville Wright provou para os norte-americanos que voar com um sistema motorizado era possível. Inventou-se assim, para os americanos, o avião; no entanto, o público em geral só teve acesso à aviação comercial trinta anos depois.


Os engenheiros dizem que uma nova ideia é inventada quando funciona comprovadamente em laboratório. Ela só se torna uma inovação quando pode ser reproduzida de modo confiável em uma escala significativa a custos razoáveis. Se for suficientemente importante, como o telefone, o computador digital ou o avião comercial, a ideia é chamada de inovação básica e cria um novo setor da economia ou transforma um já existente. Neste sentido, as organizações que aprendem foram inventadas, mas ainda não constituem uma inovação.


Engenharia, quando uma ideia passa de invenção a inovação, reúnem-se diversas tecnologias componentes. Provenientes de progressos realizados em diversos campos de pesquisa, estes componentes formam gradualmente um conjunto de tecnologias imprescindíveis ao sucesso umas das outras. Até que este conjunto se forme, a ideia, embora possível em laboratório, não pode ser colocada em prática.


Os irmãos Wright provaram que o voo motorizado era possível mas o McDonnel Douglas DC-3, lançado em mil novecentos e trinta e cinco, inaugurou a era das viagens aéreas comerciais. O DC-3 foi o primeiro avião capaz de se sustentar tanto econômica quanto aerodinamicamente. Durante estes trinta anos que se passaram ( período típico de incubação das inovações básicas ) diversos experimentos em aviação comercial fracassaram. Assim, como os experimentos iniciais com as organizações que aprendem, os primeiros aviões não eram confiáveis e eficazes em relação aos custos em uma escala adequada.


O DC-3, pela primeira vez, reuniu cinco tecnologias componentes críticas que formaram um conjunto de sucesso. Eram elas: a hélice de inclinação variável, o trem de pouso retrátil, um tipo de fuselagem leve chamado monocoque, um motor radial refrigerado a ar e flaps de asa. Para dar certo, o DC-3 precisava de todos os cinco; quatro não bastavam. Um ano antes, fora introduzido o Boeing 247 com todos os elementos, menos os flaps de asa. os engenheiros descobriram que sem eles o avião era instável na decolagem e aterrissagem e tiveram de reduzir o tamanho do motor.


Hoje, acredita-se, cinco novas tecnologias componentes estão gradualmente convergindo para inovar as organizações que aprendem. embora desenvolvidas em separado, cada uma delas, na opinião de Senge, será essencial para o sucesso das outras, como ocorre em qualquer conjunto. Cada uma proporciona uma dimensão vital na construção de organizações realmente capazes de aprender, de ampliar continuamente sua capacidade de realizar suas mais altas aspirações:


Pensamento sistêmico


As nuvens ficam pesadas, o céu escurece, as folhas giram no chão: sabe-se que vai chover. Sabe-se também que, depois da tempestade, a água da chuva alimentará os lençóis d'água, a quilômetros de distância, e que pela manhã o céu estará claro outra vez. Todos estes eventos estão distantes no tempo e no espaço, mas estão conectados em um mesmo padrão. Um tem influência sobre o outro, uma influência que, em geral, não é aparente. Só será possível o entendimento do sistema de uma tempestade contemplando o todo, não uma parte individual do padrão.


As empresas e os outros feitos humanos também são sistemas. Estão igualmente conectados por fios invisíveis de ações inter-relacionadas, que muitas vezes levam anos para manifestar seus efeitos umas sobre as outras. Como todos fazem parte deste tecido, é duplamente difícil ver o padrão de mudança como um todo. Ao contrário, há a tendência à concentração em fotografias de partes isoladas do sistema, havendo a pergunta de por que os problemas mais profundos parecem nunca ter solução. O pensamento sistêmico é um quadro de referência conceitual, um conjunto de conhecimentos e ferramentas desenvolvido ao longo dos últimos cinquenta ou oitenta anos para esclarecer os padrões como um todo e promover uma ajuda para se ver como fazer a mudança efetiva.


Embora as ferramentas sejam relativamente novas, a visão de mundo subjacente é extremamente intuitiva; experimentos realizados com crianças pequenas mostram que elas aprendem o pensamento sistêmico com muita rapidez.


Domínio pessoal


A palavra domínio poderia sugerir controle sobre as pessoas ou sobre as coisas. Mas pode significar também um nível especial de proficiência. Um perito artesão não controla a arte da cerâmica ou da tecelagem. As pessoas com alto nível de domínio pessoal conseguem concretizar os resultados mais importantes para ela - na verdade, veem a vida como um artista veria uma obra de arte. Fazem isto comprometendo-se com seu próprio aprendizado ao longo da vida.


Domínio pessoal é a disciplina de continuamente esclarecer e aprofundar a visão pessoal, de concentrar as próprias energias de desenvolver paciência e de ver a realidade objetivamente. Como tal, é uma pedra de toque essencial para a organização que aprende - seu alicerce espiritual. A capacidade e o comprometimento de uma organização em aprender não podem ser maiores do que seus integrantes. As raízes desta disciplina nas tradições espirituais ocidentais e orientais, bem como em tradições seculares.


Porém, surpreendentemente, poucas organizações estimulam o crescimento de seus funcionários desta forma. Isto resulta em um desperdício de recursos:


- Ao ingressarem nas organizações, as pessoas são brilhantes, bem-educadas, com alto grau de energia, cheias de vontade e desejo de fazer a diferença - afirma O'Brien, da Hanover - Quando chegam aos trinta anos de idade, poucas estão em rápida ascendência; as outras cumprem o seu horário para fazer o que e importante para elas no fim de semana. Perdem o senso de compromisso, de missão, e a vitalidade com a qual iniciaram suas carreiras. Aproveita-se muito pouco da energia pessoal e quase nada de seu espírito. - conclui.


E é surpreendente como poucos adultos trabalham no sentido de desenvolver rigorosamente seu próprio domínio pessoal. Quando pergunta-se à maioria o que querem da vida, eles primeiro falam de coisas das quais gostariam de se livrar.


- Gostaria de que a minha sogra se mudasse lá de casa ( ... )   gostaria de me ver livre das minhas dores nas costas... - dizem.


A disciplina do domínio pessoal, por outro lado, começa esclarecendo as coisas que são realmente importantes para o indivíduo, levando-o a viver a serviço de suas mais altas inspirações.


Neste texto, o interesse é especial na conexão entre aprendizagem pessoal e aprendizagem organizacional, nos compromissos recíprocos entre indivíduo e organização, e no espírito especial de uma organização composta de pessoas dispostas a aprender.


Modelos mentais


São pressupostos profundamente arraigados, generalizações ou mesmo imagens que influenciam a forma humana de ver o mundo e de agir. Muitas vezes, não se está e estado de consciência de modelos mentais ou dos efeitos destes sobre o comportamento humano. Por exemplo, é possível a observação que uma ( pessoa ) colega de trabalho se veste com elegância e dizer a si mesmo:


- Ela ( pessoa )é uma pessoa de classe!...


E quanto a alguém que se veste de forma mais descuidada, pode-se achar:


- Ela ( pessoa ) não se importa com a opinião dos outros...


Os modelos mentais do que pode ou não ser feiro em diferentes contextos gerenciais não são menos arraigados. Muitas ideias novas sobre novos mercados ou sobre práticas organizacionais obsoletas não são colocados em prática porque entram em conflito com poderosos modelos mentais implícitos.


A Royal Dutch / Shell, uma das primeiras grandes organizações a entender as vantagens da aceleração da aprendizagem organizacional, percebeu isto ao contatar quão difusas eram as influências dos modelos mentais ocultos, principalmente daqueles que haviam se tornado amplamente compartilhados. O extraordinário sucesso da Shell no seu gerenciamento em meio às mudanças radicais e à imprevisibilidade da crise mundial do petróleo das décadas de setenta e oitenta decorreu, em grande parte, do aprendizado de como trazer á tona e questionar os modelos mentais dos gerentes ( no início da década de setenta, a Shell era a mais fraca das sete grandes organizações petrolíferas; no final da década de oitenta, tornara-se a mais forte ). Arie de Geus, ex-vice-presidente de Planejamento, aposentado recentemente da Shell, diz que a adaptação e o crescimento contínuos em um ambiente de negócios em mudança dependem da aprendizagem institucional, processo pelo qual as equipes gerenciais compartilham os modelos mentais da organização, de seus mercados e de seus concorrentes. Por este motivo, pensa-se no planejamento como aprendizagem e no planejamento corporativo como aprendizagem institucional.


O trabalho com modelos mentais começa por virar o espelho para dentro; aprender a desterrar as próprias imagens internas do mundo, a levá-las à superfície e mantê-las sob rigorosa análise. Inclui também a capacidade de realizar conversas ricas em aprendizados, que equilibrem indagação e argumentação, em que as pessoas exponham de forma eficaz seus próprios pensamentos e estejam abertas à influência dos outros.


A construção de uma visão compartilhada


Se existe uma ideia sobre liderança que tenha inspirado as organizações durante milhares de anos foi a capacidade de ter uma imagem compartilhada do futuro que se busca criar. É difícil pensar em alguma organização que tenha se mantido em uma posição de grandeza na ausência de metas, valores e missões profundamente compartilhados na organização. A IBM tinha o serviço; a Polaroid a fotografia instantânea; a Ford tinha o transporte público para as massas e a Apple a computação para as massas. Embora radicalmente diferentes, em termos de conteúdo e tipo, todas estas organizações conseguiram reunir as pessoas em torno de uma identidade e um senso de destino comuns.


Quando existe uma visão genuína ( em oposição á famosa declaração de missão ), as pessoas dão tudo de si e aprendem, não porque são obrigadas, mas porque querem. Porém, muitos líderes têm visões pessoais que nunca se traduzem nas visões compartilhadas de uma empresa que gira em torno do carisma de um líder ou de uma crise que estimula temporariamente a todos. No entanto, se tiverem escolha, a maioria das pessoas opta por perseguir um objetivo nobre, não apenas em épocas de crise, mas o tempo todo. O que falta é uma disciplina capaz de traduzir a visão individual em uma visão compartilhada -  não um livro de receitas, mas um conjunto de princípios e práticas orientadoras.


A prática da visão compartilhada envolve as habilidades de descobrir imagens de futuro compartilhadas que estimulem o compromisso genuíno e o envolvimento, em lugar da mera aceitação. Ao dominar esta disciplina, os líderes aprendem como é contraproducente tentar ditar uma visão, por melhores que sejam as suas intenções.


Aprendizagem em equipe


Como uma equipe de gerentes comprometidos, com QI acima de cento e vinte, pode ter, coletivamente, um QI de sessenta e três? A disciplina da aprendizagem em equipe enfrenta este paradoxo. Sabe-se que as equipes podem aprender; nos desportos, no teatro, na ciência e até mesmo, ocasionalmente, nos negócios existem exemplos notáveis nos quais a inteligência da equipe excede a inteligência de seus membros, e nos quais o grupo desenvolve capacidades excepcionais de ação coordenadas. Quando as equipes realmente estão aprendendo, não só produzem resultados extraordinários como também seus integrantes crescem com maior rapidez do que ocorreria de outra forma.


A disciplina da aprendizagem em equipe começa pelo diálogo, a capacidade dos membros de deixarem de lado as ideias preconcebidas e participarem de um verdadeiro pensar em conjunto. Para os gregos, dia-logos denotava o livre fluxo de significado em um grupo, permitindo novas ideias e percepções que os indivíduos não conseguiram ter sozinhos. É interessante observar que muitas culturas primitivas, como a dos índios norte-americanos, preservaram a prática do diálogo, mas esta prática se perdeu quase que totalmente na sociedade moderna. Hoje, os princípios e as práticas do diálogo estão sendo redescobertos e inseridos em um contexto contemporâneo. ( Diálogo difere de discussão, que é mais comum e tem sus raízes em percussão e concussão, que significam literalmente atirar as ideias de um lado para outro em uma competição do tipo tudo ou nada. )


A disciplina do diálogo envolve também o reconhecimento dos padrões de interação que dificultam a aprendizagem nas equipes. Os padrões de defesa frequentemente são profundamente enraizados na forma de operação da equipe. Se não forem detectados, minam a aprendizagem. Se percebidos, e trazidos à tona de forma criativa, podem realmente acelerar a aprendizagem.


A aprendizagem em equipe é vital, pois as equipes, e não os indivíduos, são a unidade de aprendizagem fundamental nas organizações modernas. Este é um ponto crucial: se as equipes não tiverem capacidade de aprender, a organização não a terá.


Se uma organização que aprende fosse uma inovação de engenharia, como o avião ou um computador pessoal, os componentes seriam chamados de tecnologias. Para uma inovação no comportamento humano, os componentes precisam ser vistos como disciplinas. Não entende-se por disciplina uma ordem cumprida ou a forma de punição, mas sim um corpo de teoria e técnica, as quais devem ser estudadas e denominadas para serem colocadas em prática. Uma disciplina é um caminho de desenvolvimento para a aquisição de determinadas habilidades ou competências. Em qualquer disciplina - de tocar piano á engenharia elétrica - há pessoas que nascem com um dom, mas todos podem ter proficiência através da prática.


Praticar uma disciplina é ser um eterno aprendiz. Nunca se chega a um lugar; passa-se a vida aprimorando disciplinas. Jamais será possível dizer:


- Somos uma organização que aprende.


Da mesma forma que não será possível dizer:


- Sou uma pessoa iluminada.


Quanto mais se aprende, maior é a consciência do tamanho da própria ignorância. Assim, uma organização não pode ser excelente no sentido de ter chegado a um estado permanente de excelência; encontra-se sempre no estado de praticar as disciplinas de aprendizagem, de se tornar melhor ou pior.


A ideia de que as organizações podem se beneficiar de disciplinas não é inteiramente nova. Afinal, disciplinas gerenciais como a contabilidade existem há muito tempo. Mas as cinco disciplinas diferem das disciplinas gerenciais mais familiares na medida em que são disciplinas pessoais. cada uma tem a ver com a forma de pensar, com o que realmente se quer, e como se interage e se aprende uns com os outros. Neste sentido, assemelham-se mais às disciplinas artísticas do que às disciplinas gerenciais tradicionais. Além disto, embora a contabilidade seja útil para acompanhar os números, nunca serão abordadas as tarefas mais sutis de construção de organizações, de ampliação de suas capacidades de inovação e criatividade, de desenvolvimento de uma estratégia e de elaboração de políticas e estruturas por meio da assimilação de novas disciplinas. Talvez seja por isto que muito frequentemente, as grandes organizações subam de modo acelerado, desfrutando do seu momento ao sol, e depois voltem silenciosamente à sua posição de mediocridade.


A prática de uma disciplina é diferente da emulação de um modelo. Muitas vezes, as inovações gerenciais são descritas em termos das melhores práticas das chamadas empresas líderes. Embora seja interessante, frequentemente acredita-se que estas descrições podem causar mais danos do que benefícios, levando a cópias graduais e á eterna tentativa de imitação do modelo. Não é crível que as grandes organizações tenham se desenvolvido tentando emular outras, assim como não se pode alcançar a grandeza individual tentando copiar outra grande personalidade.


A quinta disciplina


É vital que as cinco disciplinas se desenvolvam como um conjunto. Isto é desafiador, pois é muito mais difícil integrar novas ferramentas do que simplesmente aplicá-las separadamente. Mas as recompensas são enormes.


Por isto, o pensamento sistêmico é a quinta disciplina, aquela que integra as outras, fundindo-se em um corpo coerente de teoria e prática. Impede-as de serem truques separados ou o mais recente modismo para mudança organizacional. Sem uma orientação sistêmica, não há motivação para analisar as inter-relações entre as disciplinas. Ampliando cada uma das outras disciplinas, o pensamento sistêmico lembra continuamente que a soma das partes pode exceder o todo.


Por exemplo, a visão sem o pensamento sistêmico acaba projetando lindos quadros do futuro, sem uma compreensão profunda das forças que precisam ser dominadas para que seja possível andar daqui para lá. Este é um dos motivos pelos quais muitas organizações que adotaram o modismo da visão recentemente viram que uma visão nobre, isoladamente, não transforma o destino da organização. Sem o pensamento sistêmico, a semente da visão é plantada em terreno árido. Se o pensamento não sistêmico predominar, descumpre-se a primeira condição para uma visão estimulante: a crença genuína de que é possível transformar a visão do homem em realidade no futuro. Será dito:


- É possível a concretização da visão do homem.


A maioria dos gerentes norte-americanos são condicionados a acreditar nisto, mas a visão tácita da realidade atual como um conjunto de condições criadas por outra pessoa vem como uma traição.


Porém, para concretizar o potencial do homem, o pensamento sistêmico também precisa das disciplinas de construção de uma visão compartilhada, modelos mentais, aprendizagem em equipe e domínio pessoal. A construção de uma visão compartilhada estimula o compromisso com o longo prazo. Os modelos mentais concentram-se na abertura necessária para a revelação das limitações na forma de o homem ver o mundo. A aprendizagem em equipe desenvolve a habilidade dos grupos de buscarem uma visão do quadro como um todo, que está além das perspectivas individuais. E o domínio pessoal estimula a motivação pessoal de aprender continuamente como a ação do homem afeta o mundo. Sem o domínio pessoal, as pessoas ficam tão envolvidas na mentalidade reativa ( alguém / alguma coisa está criando meus problemas ) que se sentem profundamente ameaçadas pela perspectiva sistêmica.


Por fim, o pensamento sistêmico torna compreensível o aspecto mais sutil da organização que aprende - a nova forma pela qual os indivíduos se percebem e a seu mundo. No coração da organização que, aprende, encontra-se uma mudança de mentalidade - em vez de o homem se ver como algo separado do mundo passa a se ver conectado ao mundo; no lugar de considerar os problemas como causados por algo ou alguém lá fora, enxerga como suas próprias ações criam os problemas pelos quais passa. Uma organização que aprende é um lugar onde as pessoas descobrem continuamente como criam sua realidade. E como podem mudá-la. Como disse Arquimedes:


- Dê-me uma alavanca longa o bastante... e, com uma das mãos, moverei o mundo.


Metanóia - uma mudança de mentalidade


Quando se pergunta às pessoas como é a experiência de fazer parte de uma excelente equipe, o que se destacam é o significado desta experiência. As pessoas falam em fazer parte de algo maior do que elas mesmas, de estarem conectadas, de serem produtivas. Fica bastante claro que, para muitas delas, suas experiências como parte de equipes realmente excelentes sobressaem como períodos singulares, vividos ao máximo. Algumas passam o resto da vida buscando formas de recapturar este espírito.


Na cultura ocidental, a palavra que descreve com maior precisão o que acontece em uma organização que aprende não foi muito usada nos últimos séculos. Trata-se de uma palavra que é empregada no trabalho com as organizações em algumas décadas, mas sempre há advertência para fazer uso dela comedidamente em público. A palavra é metanóia e significa mudança de mentalidade. este termo tem uma história rica. para os gregos, para os gregos significava uma mudança ou alteração fundamental ou, mais literalmente, transcendência ( meta - acima ou além, como metafísica ) da mente ( noia - da raiz nous de  mente ). Na tradição cristã gnóstica mais recente, assumiu um significado especial - o despertar da intuição compartilhada e o conhecimento direto de Deus. Metanóia provavelmente era um termo-chave para os primeiros cristãos, como João Batista. Na tradição católica, a palavra metanóia acabou sendo traduzida como arrependimento.


Entender o sentido de metanóia é entender o significado mais profundo de aprendizagem, pois esta também envolve uma alteração fundamental ou movimento da mente. O problema de se falar sobre organizações que aprendem é que aprendizagem perdeu seu significado central no uso contemporâneo. A maioria das pessoas chega a desviar o olhar quando fala-se sobre aprendizagem ou organizações que aprendem. Não é surpresa, portanto, que no uso cotidiano aprendizado tenha se tornado sinônimo de internalização de informações.


- Sim, aprendi isto naquele curso de ontem.


No entanto, a internalização de informações tem pouca relação com o verdadeiro aprendizado. Seria um contra-senso dizer:


- Acabei de ler um excelente livro que ensina a andar de bicicleta - agora já sei andar de bicicleta.


A verdadeira aprendizagem chega ao coração do que significa ser humano. Através da aprendizagem amplia-se a capacidade humana de criar, de fazer parte do processo gerativo da vida. Existe dentro de cada homem uma intensa sede para este tipo de aprendizagem. É nas palavras de Bill O'Brien, da Hanover Insurance:


-Tão fundamental par ao ser humano quanto o desejo sexual.


É este, portanto, continua:


- O significado básico de uma organização que aprende.


Uma organização que está continuamente expandindo sua capacidade de criar seu futuro. Para uma organização como esta, não basta apenas sobreviver, continua:


- A aprendizagem visando à sobrevivência.


Ou o que é conhecido mais comumente como, continua:


- A aprendizagem adaptativa.


É importante - na verdade, é necessária. Mas para uma organização que aprende, a aprendizagem adaptativa deve ser somada à aprendizagem generativa, a aprendizagem que amplia a capacidade humana de criar.


Algumas corajosas organizações pioneiras estão indicando o caminho, mas o território do desenvolvimento das organizações que aprendem continua, em grande parte, inexplorado. Há grande esperança de que este texto possa acelerar esta exploração.


Colocando as ideias em prática


Senge dizia não clamar para si o crédito pela criação das cinco grandes disciplinas. As cinco disciplinas descritas a seguir representam as experiências, as pesquisas, os escritos e as invenções de centenas de pessoas. Mas dizia trabalhar com as disciplinas havia anos, aperfeiçoando ideias sobre elas, colaborando em pesquisas e introduzindo-as em organizações ao redor do mundo.


Quando Senge iniciou o curso de pós graduação no Massachussets Institute of Technology ( MIT ) em mil novecentos e setenta, dizia estar convencido de que grande parte dos problemas que a humanidade enfrentava dizia respeito à falta de capacidade de entendimento e gerência dos sistemas cada vez mais complexos do mundo. De lá para cá, aconteceram poucas coisas capazes de modificar esta visão. Hoje, a corrida armamentista, os problemas ambientais, o comércio internacional de drogas, a estagnação do terceiro mundo e os seus persistentes déficits orçamentários e comerciais dos EUA atestam em favor de um mundo onde os problemas tornam-se cada vez mais complexos e interligados. Desde o início do seu curso no MIT, Senge diz ter se sentido atraído pelo trabalho de Jay Forrester, pioneiro da computação que havia mudado de área para desenvolver o que chamou de dinâmica de sistemas. Jay afirmava que as causas de muitos dos maiores problemas públicos, da dacadência urbana à ameaça global, estão nas políticas muito bem-intencionadas que foram desenvolvidas para resolvê-los. Estes problemas eram de fato sistemas que levaram os governantes a intervenções centradas em sintomas óbvios, e não nas causas subjacentes, o que produzia benefícios a curto prazo mas também danos a longo prazo, e estimulava a necessidade de outras intervenções sintomáticas.


Quando Senge iniciou sua tese de doutorado, tinha pouco interesse pela administração de organizações. Achava que a soluções para os grandes problemas estavam no setor público. Mas logo começou a conhecer líderes empresariais que iam visitar seu no MIT para aprender sobre o pensamento sistêmico. Eram pessoas profundamente conscientes das inadequações dos métodos gerenciais predominantes à época. Estavam envolvidas no desenvolvimento de novos tipos de organizações - descentralizadas e não hierárquicas, dedicadas ao bem-estar e crescimento dos funcionários, bem como ao sucesso. Algumas haviam criado filosofias empresariais radicais baseadas em valores essenciais de liberdade e responsabilidade. Outras haviam desenvolvido projetos organizacionais inovadores. Todas tinham em comum o comprometimento e a capacidade de inovar, ausente à época no setor público. Aos poucos, Senge dizia ir percebendo por que a empresa é o locus da inovação em uma sociedade aberta. Apesar de qualquer influência que as antigas formas de pensar possam ter exercido sobre a mentalidade empresarial, a empresa tem uma liberdade de experimentar ausente á época no setor público e, muitas vezes, em organizações sem fins lucrativos ( que visam ao lucro mas não os distribuem aos sócios ). Possui também um resultado claro, permitindo assim que os experimentos possam ser avaliados, pelo menos em princípio, por critérios objetivos.


Mas por que estas pessoas estavam interessadas no pensamento sistêmico? Muitas vezes os experimentos organizacionais mais audaciosos estavam fracassando. A autonomia local produzia decisões de negócios desastrosas para a organização como um todo. Exércitos de formação de equipes programavam atividades de canoagem para colegas de trabalho, mas quando voltam para casa eles continuavam discordando fundamentalmente sobre os problemas empresariais. As empresas uniam-se em épocas de crise, para depois perder toda a inspiração quando os negócios melhoravam. Organizações que começaram como sucessos estrondosos, com as melhores intenções possíveis com relação aos clientes e funcionários, viam-se presas em espirais descendentes que pioravam a cada vez que se tentava revertê-las.


Por isto, todos acreditavam que as ferramentas do pensamento sistêmico poderiam ser importantes nestas organizações. Ao trabalhar com organizações diferentes, Senge passou a ver por que o pensamento sistêmico, em si, não bastava. Era necessário um novo tipo de profissional que realmente tirasse o maior proveito deste pensamento. Na época, meados da década de setenta, começava a surgir uma noção de como poderia ser este profissional, porém esta noção ainda não havia se cristalizado. Está se cristalizando atualmente no grupo de Senge no MIT: Wiliam O'Brien, da Hanover Insurance; edward Simon, da herman Miller, e Ray Stata, diretor-presidente da Analog Devices. Todos os três participam o programa de pesquisas há vários anos, junto com líderes da Apple, Ford, Polaroid, Royal Dutch / Shell e Trammell Crow.


Durante onze anos, Senge também participou do desenvolvimento e da realização dos workshops sobre liderança e domínio pessoal da Innovation Associates ( IA ), que apresentavam pessoas de todos os níveis às ideias da quinta disciplina derivadas do seu trabalho no MIT, combinadas ao trabalho inovador da IA na construção de uma visão compartilhada e domínio pessoal. Mais de quatro mil gerentes participaram de seus workshops. Começou com um foco específico nos executivos seniores das organizações, mas logo descobriu que as disciplinas básicas como pensamento sistêmico, domínio pessoal e visão compartilhada eram relevantes para professores, administradores públicos e autoridades eleitas, estudantes e pais. Todos ocupavam importantes posições de liderança. Todos estavam em organizações que ainda tinham um potencial oculto para a criação de seu futuro. todos sentiam que, para aproveitar este potencial, era necessário desenvolver suas próprias capacidades, ou seja, aprender.


Portanto, este texto destina-se aos aprendizes, especialmente àqueles interessados na arte e prática da aprendizagem coletiva.


Para os gerentes, este texto deve servir para identificar as práticas, habilidades e disciplinas específicas que façam com que a construção de organizações não continue sendo uma arte secreta ( ainda que permaneça uma arte ).


Referência:


Senge, Peter M. A quinta disciplina: a arte e prática da organização que aprende. 24ª. edição. Rio de Janeiro: Bestseller, 2008. ( pp. 37-50 ).


Mais em:


https://administradores.com.br/artigos/aprendizagem-organizacional-o-sucesso-das-organiza%C3%A7%C3%B5es-que-aprendem .

Mobilidade urbana: transporte marítimo tem nova previsão para operar na capital de SC. 2024

O esperado transporte marítimo da Grande Florianópolis ( Capital do Estado de Santa Catarina - SC ) deve iniciar em dois mil e vinte e quatro. Esta é a nova projeção do governo do Estado de SC para o modal tão esperado. Mais uma etapa foi vencida na última sexta-feira ( cinco de fevereiro de dois mil e vinte e um ) quando, em agosto de dois mil e vinte, técnicos do Poder Executivo Estadual ( PEE ) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento ( BID ), entregaram os estudos para o governador Carlos Moisés da Silva ( do Partido Social Liberal - PSL ). A tarifa projetada, diferentemente dos estudos anteriores, prevê um valor mais barato para tarifa: seis reais e cinquenta centavos e não dezesseis reais conforme cálculos na gestão passada. Não haverá subsídio. A conclusão atual é que há demanda para o modelo.
Viagem experimental em março de 2018 trouxe otimismo, mas...
Viagem experimental em março de dois mil e dezoito trouxe otimismo, mas... ( Foto : Cristiano Estrela, DC, banco de dados )

O material utilizou dados do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável ( Plamus ) e novas análises coletadas. O BID conta com 4 consultores e dois técnicos trabalhando neste projeto. Não há custo para o Estado. A instituição financeira será remunerada pela concessão.

Serão cinco rotas e as análises levaram em consideração três pontos: demanda, engenharia e viabilidade econômica.

Dois tipos de embarcações deverão ser utilizadas: Ferryboat e para passageiros. A rota entre Florianópolis e São José, por exemplo, teria embarcação para novecentos e sessenta lugares.

Agora, a ideia será levada à Casa Civil ( CC ) para construir o sistema em conjunto com as prefeituras e organizar as audiências públicas. Trata-se de uma questão, também, estratégica. O governo entende que projeto precisa ter autoria conjunta para que o ganho político seja coletivo e sem um único “pai da criança”.

Após a etapa política e de consultas públicas, volta ao BID para a coleta de documentação. Espera-se o lançamento do edital até o final de dois mil e vinte e dois e o início da operação para dois mil e vinte e quatro. A concessão será de trinta e cinco anos.

Será que agora, afinal, o projeto sairá da maquete?


Com informações de:


Renato Igor, do jornal Diário Catarinense ( DC ).